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Sinopse

O italiano Carlo Cafiero realizou, ainda em vida de Marx, que aprovou o seu trabalho, um resumo do primeiro livro de O Capital, único publicado pelo próprio Marx

Notas sobre o texto

Ou continue para ler no site

Sumário

I

Mercadoria, dinheiro, riqueza e capital

A mercadoria é um objeto que tem um duplo valor: valor de uso e valor de troca, que é o valor propriamente dito. Se tenho, por exemplo,20 quilos de café, eu posso tanto consumi-lo para o meu próprio uso quanto trocá-lo por 20 metros de tecido, por uma roupa, ou por 250 gramas de prata, se, ao invés de café, eu precisar uma dessas três outras mercadorias.

O valor de uso da mercadoria de baseia na qualidade própria da mercadoria: se ela é para beber, para comer, ou para divertir. Portanto, essa qualidade é determinada para satisfazer uma determinada necessidade nossa e não qualquer de outras de nossas necessidade. O valor de uso dos 20 quilos de café é baseado nas propriedades que o café possui e essas são tais que nos dão a bebida café, mas não prestam para fazer uma roupa ou qualquer outra coisa. É por isso que só podemos tirar proveito do valor de uso dos vintes quilos de café se sentimos a necessidade de beber café. Mas, se, ao contrário, se eu precisasse de uma camisa não dos vinte quilos de café que tenho em mãos.? O que fazer? Não sabemos, se a mercadoria não tivessem também, junto com o valor de uso, o valor de troca. Encontramos agora uma pessoa que tem uma camisa, da qual não tem necessidade, mas que precisa do café. Então fazemos uma troca. Eu lhe dou os 20 quilos de café e ela me dá a camisa…

Mas como podem as mercadorias de propriedades tão diferentes entre si, serem trocadas pelas em determinadas proporções? Porque a mercadoria, além do valor de suo, tem também o valor de troca. Isso já sabemos. O que sabíamos era que a base do valor de troca, do valor propriamente dito, é o trabalho humano necessário para se produzir essas mercadorias. A mercadoria é produzida pelo trabalhador. Portanto, o trabalho humano é a substância procriadora; é o trabalho que dá existência à mercadoria. Em sua essência, embora de propriedades tão diversas entre si, todas as mercadorias são a mesma coisa, perfeitamente iguais, porque , filhas de um mesmíssimo pai , tem todas o mesmíssimo sangue em suas veias. Se trocamos 20 quilos de café por uma camisa ou por 20 metros de pano, é porque para produzir 20 quilos de café, precisou de tanto trabalho humano tanto para a produção de uma camisa ou de 20 metros de tecido. Trocou-se uma camisa por tanto de trabalho humano materializado nos vinte quilos de café, ou trocam-se os vinte quilos de café por tanto de trabalho humano materializado em uma camisa. Ou seja, trocou-se trabalho por trabalho. A substância do valor da mercadoria está no trabalho humano e a grandeza desse valor é determinada pela grandeza do trabalho humano. Ora, se a substância do valor é mesma em todas as mercadorias e isto quer dizer que todas as mercadorias como o veículo de valor são todas trocáveis entre si, e, o que menos resta , portanto é compra essa grande, medi-la. 

A grandeza do valor depende da grandeza do trabalho; e qual é a medida do trabalho? O tempo: hora dia, mês, etc. em 12 horas de trabalho se produz um valor duas vezes maior do que se produziria em 6 horas. Daí alguém poderia dizer que quanto mais lento seja um trabalhador, quer por inabilidade, quer por preguiça, mais valor produz. Nada mais falso do que esta afirmação, pois o trabalho de que estamos falando e que dá substância ao valor, não é o trabalho de Pedro ou de Paulo, e sim um trabalho médio, que é sempre igual e que é propriamente chamado de trabalho social. É um trabalho que, em um determinado centro de produção, pode ser feito em média por um operário,o qual trabalha com uma habilidade média e uma intensidade média.

Conhecido o duplo caráter da mercadoria, isto é, de ser valor de uso e valor de troca, compreendemos que a mercadoria só pode nascer por obra do trabalho, e de um trabalho útil a todos,. Por exemplo, o ar, os prados naturais, a terra virgem, etc., são úteis para o homem, mas não constituem nenhum valor, porque não são produtos de seu trabalho e, consequentemente não são mercadorias. Também podemos fabricar objetos para o nosso próprio uso, mas não podem ser úteis a outros; nesse caso não produzimos mercadorias; do mesmo modo não produzimos mercadoria, quando trabalho com coisas que não têm nenhuma utilidade nem para nós, nem para os outros.

As mercadorias, pois , são trocadas entre si; uma se apresenta como equivalente da outra. Para maior facilidade das trocas, começa-se a empregar uma determinar mercadoria como equivalente da outras Esta mercadoria se destaca do conjunto de todas as outras para se colocar frente a eles como equivalente geral, isto é, como dinheiro. Por isso, o dinheiro é aquela mercadoria que, pelo costume e por determinação legal, monopolizou o posto de equivalente geral. Assim, o dinheiro, moedas, chegou até nós através da prata. Enquanto antes, 20 quilos de café, uma camisa, 20 metros de tecido e 250 gramas de prata eram quatro mercadorias que se trocavam entre si indistintamente, hoje, ao contrário, tem-se que 20 quilos de café, ima camisa de 20 metros de tecido são três mercadorias que valem, cada uma, 250 gramas de prata, por exemplo, 500 cruzeiros.

Mas seja através das mercadorias diretamente, seja através do dinheiro, a lei de trocas permanece a mesma, sempre. Uma mercadoria só pode ser trocada por outra de seu valor de troca for igual. Isto quer dizer que se uma mercadoria não tiver o mesmo tempo de trabalho que a outra, não troca. Esta só acontece entre trabalho iguais. E tudo que vamos dizer agora em diante é baseado nela, nessa lei de troca de mercadorias.

Co a chegada do dinheiro, da meda, as trocas diretas ou imediatas de uma mercadoria desapareceram. Agora todas as trocas devem ser feitas através do dinheiro. Desse modo, qualquer que queira ser transformar em outra deve, antes de mais nada, como mercadoria, transformar-se em mercadoria. Portanto, o esquema da trocas não será mais uma cadeia de mercadorias – uma abóbora X uma melancia X um pão – e sim, uma mercadoria e dinheiro. Ei-la:

mercadoria – dinheiro – mercadoria – dinheiro

M                 D                 M                D

Ora , se nesta fórmula assinalamos os giros que a mercadoria realizou, assinalamos também os giros do dinheiro. Como veremos, é desta fórmula do capital.

Quando temos em nossas mãos uma certa quantidade de mercadorias ou de dinheiro, o que no caso vem a dar no mesmo, somos possuidores de uma certa riqueza. Se agente pudesse dar a esta riqueza um corpo, que é um organismo que se desenvolve, que se alimenta, então teríamos o capital. Ter um coro ou um organismo capaz de se desenvolver significa nascer e crescer. É nesse desenvolvimento que a origem do capital parece desaparecer, na natureza possivelmente fecunda do dinheiro.

Mas de que maneira nasce o capital?

Naquela que assinalava os giros da mercadoria e do dinheiro um número que indica seu progressivo:

Dinheiro – mercadoria – dinheiro 1 – mercadoria – dinheiro 2 – mercadoria – dinheiro 3…

E exatamente essa a fórmula do capital:

M – D1 – M – D2 – M – D3…

Como vimos, a reposta ao problema (encontrar um método de fazer nascer de nascer o capital) estava contida na resolução de um outro problema: encontrar uma fórmula de fazer aumentar progressivamente o dinheiro.

E como o capitalista consegue isso? É o nosso próximo capítulo.

II

Como  nasce o capital

Observando atentamente aquela fórmula do capital (D – M – D1 – M – D2), chega-se a conclusão de que a questão da origem do capital se resolve, em última análise, nesta outra questão: encontrar uma mercadoria que dê mais dinheiro do que se gastou em sua compra Em outras palavras, encontrar uma mercadoria que, em nossas mãos possa aumentar de valor, de tal modo que, vendendo-a, se possa ganhar mais dinheiro. Portanto, deve ser mercadoria bastante elástica para ser  capaz de aumentar o seu valor, a sua grandeza de valor. Esta mercadoria tão singular existe: é a força de trabalho.

Aí esta. O homem do dinheiro acumulou riquezas e quer  dessa riqueza criar um capital. Ele chega ao mercado com o endereço certo: comprar força de trabalho. Vamos segui-lo! Ele anda pelo mercado e dá e cara com o operário, que esta ali para vender sua única mercadoria: a força de trabalho. Mas o operário não vende a sua mercadoria de uma só vez para sempre. Ele vende a sua força de trabalho em parte, por um dado tempo, um dia, um mês, etc. se o operário vendesse sua força de trabalho inteiramente, não seria mais um mercado e se transformaria em ele mesmo, sua pessoa, em mercadoria; não seria mais um assalariado, mas um escravo de seu patrão. 

O preço da força de trabalho se calcula da seguinte maneira: tomam-se os preços dos alimentos da roupa, da habitação, enfim, de tudo que é necessário ao trabalho para manter a sua força de trabalho durante o ano e sempre no seu estado normal. Acrescenta-se, a esta primeira soma, o preço de tudo que é necessário ao trabalhador para procriar, alimentar e educar seus filhos. Segundo sua condição; depois se divide o total pelo dias do ano – 365 – , e se saberá quanto, por dia, é necessário para manter a força de trabalho, o seu preço diário, que é o salário do diário do operário. O que o trabalhador precisa para procriar, alimentar e educar os seus filhos entre neste cálculo, porque o filhos do trabalhador representam a continuação da força de trabalho. Assim, se o operário vendesse por inteiro a sua força de trabalho, não apenas ele, mas também seus filhos seriam escravos de seu patrão, eles também seriam mercadoria. Porém, como assalariado, ele tem o direito de conservar todo o resto, que se encontra parte nele e parte de seus filhos.

Com aquele cálculo obtivemos o preço exato da força de trabalho. A leis da trocas, como vimos no capítulo anterior, diz que uma mercadoria não pode ser trocada por outra se não tiverem o mesmo valor; isto é, se trabalho que se requer para produzir uma não for igual ao trabalho que se requer para a produção da outra.. Ora, o trabalho que se exige para produzir o que é necessário ao trabalhador e, portanto, o valor das coisas necessárias ao trabalhador é igual ao valor de sua força de trabalho; se o trabalhador necessita de 100 cruzeiros por dia para comprar todas as coisas que lhe são necessárias, logicamente 100 cruzeiros será o preço diário de sua força de trabalho

Pois bem. Sem alterar em nada o que falamos até aqui, podemos supor que o salário diário de um operário alcance os 100 cruzeiros. Suponhamos, ainda, que em 6 horas de trabalho sejam produzidas 15v gramas de prata, que equivalem a 100 cruzeiros. Agora, voltemos ao mercado.

Lá, enquanto isso, o homem do dinheiro fez um contrato com p proprietário da força de trabalho, pagando por ela o seu justo preço de 100 cruzeiros. Ele é um burguês muito honesto e, além disso, muito religioso, incapaz de especular com a mercadoria do operário. Nem é necessário dizer que o salário do operário só vai ser pago no fim do dia, ou da semana, ou do mês. Enfim, só que ele trabalhou, depois que ele produziu, é que ele recebe o salário. É o que acontece também com outras mercadorias, cujo o valor se realiza no uso, como é, por exemplo, o caso de uma casa ou  do arrendamento de uma terra, cujo preço precisa ser pago de acordo com o prazo estabelecido.

Este são os três elementos do processo do trabalho:

1º) força de trabalho;

2º) matéria-prima;

3º) os meios de trabalho.

Bem, voltando ao nosso homem do dinheiro: depois de comprar a força de trabalho, isto é, a fábrica com todos os instrumentos e condições e trabalho já estão perfeitamente preparados. E agora, diz ele, saindo apressado do mercado:

Mãos à obra!

Uma certa transformação parece ter-se dado na fisionomia dos personagens do nosso drama. O homem do dinheiro toma a dianteira, na qualidade de capitalista; o proprietário da força de trabalho segue-o, como seu trabalhador. Aquele com a aparência de honrada, satisfeita e atarefada; o outro tímido, hesitante com a sensação de quem a própria pele no mercado e que agora não pode esperar outra coisa se não … ser esfolado.

Enfim chegam à fábrica. O capitalista se apressa em botar o seu operário para trabalhar, entregando-lhe dez quilos de algodão. Antes que eu me esqueça, esse operário é fiandeiro, produz fios de algodão.

É consumido os seus três elementos: a força de trabalho, a matéria-prima e os meios de trabalho, que o trabalho se realiza.

O consumo dos meios de trabalho calcula-se do seguinte modo: da soma de valor de todos meios de trabalho – o prédio, suas instalações, as ferramentas, o óleo, o carvão, etc. – subtrai-se a soma do valor dos meios de trabalho; dividindo o resultado desta subtração pelo número de dias que os meios de trabalho possam dura, temos o consumo diário dos meios de trabalho.

Parece complicado, não? Vamos repetir isso, exemplificando com números:

Suponhamos que os meios de trabalho (a fábrica com suas instalações, máquinas, ferramentas, etc.) devam durar 10 anos ou 3.650 dias. Por todos esses meios de trabalho, o capitalista desembolsou, por exemplo, Cr$ 1.460.000,00; dividindo essa quantia por3.650 dias, temos Cr$400,00, que corresponde ao consumo diário dos meios de produção. o nosso operário trabalhou durante toda uma jornada de 12 horas. Ao final dessa jornada ele transformou os 10 quilos de algodão bruto em 10 dez quilos de entregou-os padrão e deixa a fábrica, retornando para casa. No caminho, como todo o operário, ele vai fazendo as contas, para saber quanto seu patrão poderá ganhar com aqueles dez quilos de fio.

Não sei quanto custa o fio – vai dizendo para si mesmo –, mas, de qualquer modo, a conta está praticamente feita. O algodão cru, eu mesmo vi quando ele comprou no mercado: Cr$300, 00 por quilo. Todas as suas ferramentas podem ter consumo, digamos de Cr$400,00 por dia. Bem:

10 quilos de algodão ………………………………………………………………..Cr$3.000,00

desgaste diário dos meios de produção ……………………………………….Cr$  400,00

meu trabalho de hoje…………………………………………………………………Cr$  100,00

Total dos 10 quilos de fio………………………………………………………….Cr$3.500,00

Ora, certamente, sobre o algodão ele não ganhou nada: pagou o seu justo preço, nem um centavo a mais, nem um centavo a menos; do mesmo modo ele comprou minha força de trabalho, pagando seu justo preço de Cr$100,00 por dia.

Então, continua pensando o nosso fiandeiro, ele só pode ganhar vendendo o fio acima do seu valor. Não pode vir de outra coisa; ele nunca perderia tempo e energia, gastando 3.500cruuzeiros, para depois de tudo receber os mesmíssimos 3.500 cruzeiros, Oh! Como são os padrões! A nós, trabalhadores, traquejados no mercado, ele não tem com disfarçar… E esses padrões têm ainda a mania de bancarem dos honestos na frente dos trabalhadores… mas é um rouba vender uma mercadoria por mais do que ela vale ; é vendê-la com peso falso um quilo de novecentas gramas. Isto é proibido por lei. É roubo! As autoridades vão ter que fechar suas fábricas. Vai ser bom! Em seu lugar, construiremos grandes fábricas públicas, onde nós produziremos as mercadorias de que precisamos 

Assim, fantasiado, o operário chega em casa. Após jantar, se enfia na cama e adormece profundamente, sonhado com o desaparecimento dos capitalista da terra e com as grandes fábricas públicas.

Dorme, pobre amigo, dorme, enquanto te resta uma esperança. dorme em paz, que os dias de desengano não tardarão a chegar. Mais cedo do que pensas, vais entender porque os capitalistas podem perfeitamente vender sua mercadoria de lucro, sem precisar enganar ninguém. Ele mesmo te mostrará como pode se tornar capitalista e mesmo um grande capitalista, sem perder um fio de honorabilidade. Então, o teu sono não será mais tranqüilo assim. Verás, em tuas noites, o capital, com um pesadelo, que te prime, e ameaça te sufocar-te. Com os olhos aterrorizados, vais vê-lo crescer, como um monstro que tem cem dentes de vampiro penetrando nos poros de teu corpo, para chupar teu sangue. Tomando proporções desmesuradas e gigantescas, de sombrio e terrível aspecto, com os olhos e boca de fogo, vais vê-lo transformando suas garras em uma enorme trompa aspirante em que vão desaparecendo milhares de seres humanos: homens, mulheres, crianças. De tua fronte corre agora um suor de morte, porque o monstro está se aproximando para agarrar a ti e teu filhos. Mas teu último gemido será abafado pelo riso apavorante do monstro, satisfeito e, sua gula. Quanto mais próspero, mais de desumano…

Voltemos ao nosso homem do dinheiro. 

Este burguês, modelo de exatidão e ordem, acertou todas as suas contas do dia; vejam como ele calculou o preço de seus dez quilos de fio:

10 quilos de algodão a 300 cruzeiros 

o quilo ……………………………………………..Cr$ 3.000,00

o consumo das ferramentas de trabalho Cr$    400,00

Mas, quanto ao terceiro, que entrou na formação de sua mercadoria, que é o salário pago ao operário, ele nada assinalou, isso porque conhece muito bem a diferença que há entre o preço do trabalho e o produto da força de trabalho. O salário de uma jornada representa o necessário para manter o operário em 24 horas, mas não representa o fato o que o operário produziu em uma jornada de trabalho. O nosso  homem do dinheiro sabe perfeitamente que os 100 cruzeiros de salário que ele paga representa a manutenção de seu operário por vinte e quatro horas e não o que este produziu nas doze horas de trabalho em fábrica. Ele sabe tudo isso, exatamente como o agricultor sabe a diferencia que existe entre o que é a manutenção de uma vaca com seus currais, alimentação, etc,. e  o que essa vaca produz em termos de leite, queijo, manteiga, etc. 

A força de trabalho tem a propriedade singular de render mais do que custa e é por isso que o homem do dinheiro foi buscá-la no mercado. E o operário não pode reclamar, porque ele pagou o justo preço pela sua mercadoria. A lei das trocas foi rigorosamente observada. Além do que o operário não tem que se meter no uso que o comprador fará de uso sua mercadoria, do mesmo modo que o dono do armazém nada tem a ver com o uso que seu freguês dá às suas mercadorias que vende. 

Páginas atrás, supusemos que em 6 horas de trabalho se produzem 15 gramas de prata, equivalentes a 100 cruzeiros. Ora se em 6 horas a força de trabalho produz um valor de 100 cruzeiros, em 12 horas produzirá, portanto, um valor de 200 cruzeiros. Assim, o valor dos 10 quilos de fio passa a ser calculado desse modo:

pelos10 quilos de algodão cru, a 300

cruzeiros por quilo…………………………….Cr$3.000,00

pelo consumo dos meios de trabalho…..Cr$   400,00

pelas 12 horas de força de trabalho……Cr$  200,00

Total …………………………………………….Cr$3.600,00

O homem do dinheiro, depois de Ter gasto 3.500cruzeiros, obteve uma mercadoria que vale 3.600cruzeiros. conseguiu, portanto, embolsar 100 cruzeiros. O seu dinheiro deu cria; pronto, resolvemos o problema: o capital acabava de nascer.

III

A jornada de trabalho

Nem bem nasceu, o capital sente a necessidade imediata de alimento para se desenvolver. E o capitalista que vive somente para a vida do capital, preocupa-se atentamente com as necessidades deste ser, tornando-se o seu coração e sua alma, sabendo como alimentá-lo.

O primeiro meio empregado pelo capitalista em benefício do seu capital é o prolongamento da jornada de trabalho. Obviamente, a jornada de trabalho tem os seus próprios limites. Antes de mais nada, um dia não tem mais do que 24 horas. Dessas vinte quatro horas já se tem que eliminar tantas, pois o operário precisa satisfazer suas necessidades físicas e espirituais: dormir comer,, descansar para criar nona força, ler, passear, etc. fala, Marx:

Mas este limites são, por si mesmo, muito elástico e deixam muito espaço para a manobra. Assim, encontramos jornadas de trabalho de 6,10,12,14,16,e 18 horas, dou seja, da mais variada duração e o capitalista comprou a força de trabalho pelo seu valor diário. Com isto, ele adquiriu o direito de fazer trabalhar, durante todo um dia, o trabalho que está a seu serviço. Mas, o que é afinal um de trabalho? E todos os casos, é menor do que um dia natural. Mas de quanto? O capitalista tem a sua própria maneira de ver a questão sobre o limite necessário da jornada de trabalho. O tempo durante o qual operário trabalha, é o empo durante o qual o capitalista consome a força de trabalho, que ele comprou do operário. Se o assalariado consome o tempo que tem disponível para s mesmo, ele está roubando o capitalista. O capitalista não se apóia em outra coisa que não seja a lei das trocas das mercadorias. Ele, como todo comprador, procura tirar da mercadoria, do seu valor de uso, o maior benefício possível. Mas, eis que o operário levanta a voz e diz:

A mercadoria que te vendi se distingue de todas as outras mercadorias, porque o seu uso cria valor, e um valor maior do que o seu próprio custo. E é por isso que a compraste. O que para ti parece ser crescimento capital, para mim é excesso de trabalho. Tu e eu não conhecemos outra lei, que não seja a da trocas das mercadorias. O consumo de mercadoria não pertence ao vendedor, que aliena, mas ao comprador, que a adquire. O uso de minha força de trabalho te pertence, pois. Mas com o preço diário de sua venda, eu devo todos os dias poder reproduzi-la, para vendê-la de novo. Tirando a idade e outras causas naturais de desgaste, preciso amanhã estar tão forte e capaz como hoje, para retomar o meu trabalho com a mesmíssimo força. Tu me pregas constantemente o evangelho da “economia” e da “abstinência”. Taí! quero ser um administrador sábio e inteligente para economizar a minha única fortuna: a minha forca de trabalho; devo abster-se , portanto, de qualquer esbanjamento. Quero diariamente, colocá-la em movimento, pô-la a trabalhar, enfim, gastá-la apenas quando for compatível com sua direção normal e seu desenvolvimento natural. Além do que, com um prolongamento na jornada de trabalho, podes em um só dia mobilizar uma quantidade tão grande de minha força de trabalho que não vou poder repô-la nem com três jornadas. O que ganhas em trabalho, eu perco em substância. Presta, pois, muita atenção: o emprego da minha força de trabalho e o seu desfrute são duas coisas distintas, muito distintas. Se eu, como operário em média 30 anos, trabalhando num ritmo médio razoável, e tu consomes a minha força de trabalho em dez anos, tu não me pagas mais que um terço do seu valor diário; portanto, roubas de mim, todos os dias, dois terço da minha mercadoria. Exijo, pois, uma jornada de trabalho de duração normal, e a exijo sem apelar para seu coração porque em negócios não se põe sentimentos tu podes ser um burguês modelo; até pertencer a Sociedade Protetora dos Animais e, ainda por cima, exalar cheiros de santidade… Pouco importa o que representas. És inteiramente estranho aos interesses de meu coração. Exijo a jornada de trabalho normal, porque o quero o valor da minha mercadoria como qualquer outro vendedor.

Como se vê, estamos entre limites muito elásticos e a natureza mesma da troca não impõe nenhum limite à jornada de trabalho. O capitalista mantém seu direito como comprador, quando procura prolongar a jornada de trabalho o máximo possível e tenteando fazer de dois dias um só. Por outro lado, a natureza especial da mercadoria vendida exige o seu consumo pelo comprador não seja ilimitado, e o trabalhador mantém o seu direito como vendedor, quando quer restringir a duração de jornada de trabalho a uma duração normalmente determinada. Direito contra direito entre o capitalista e o trabalhador, de acordo com a lei de troca das mercadorias, há empate. E, o que decide entre dois direitos iguais? A força 

Como se emprega essa força, que hoje é toda da capital e para o capital, nos dirão os fatos que agora exploremos. O que vamos contar neste livro são quase todos episódios do capital da Inglaterra. Em primeiro lugar porque foi lá o país em que a produção capitalista chegou ao máximo em seu desenvolvimento; e, em segundo lugar, porque somente na Inglaterra encontraremos um material adequados de documentos, falando das condições de trabalho e recolhidos por obras de comissões governamentais, instituídas para este fim. Os modestos limites deste manual não nos permitem, entretanto, reproduzir mais do que uma pequeníssima parte do rico material recolhido na abra de Marx.

Eis aqui alguns dados de uma pesquisa feita em 1860 e 1863, na indústria de cerâmica: W. Wood, de nove anos, tinha 7 anos e meio quando começou a trabalhar. Wood trabalhava todos os dias da semana, das 6 da manhã até às 9 da noite, ou seja 15 horas por dia. J. murray, de 121 anos , trabalhava numa fábrica, trazendo as fôrmas e girando uma roda. Ele começava a trabalhar às seis da manhã, às vezes, às quatro; seu trabalho era prolongado de tal modo, que muitas vezes entrava pela manhã seguinte a dentro. E isto em companhia de outros 8 ou 9 meninos que eram tratados do mesmo modo que ele. O médico Charles Parsons assim escreveu a um comissário do governo:

“falo com base nas minhas observações pessoais e não sobre dados estatísticos. Não posso esconder minha revolta ao ver o estado desta pobre crianças, cuja saúde é sacrificada por m trabalho excessivo, para satisfazer a cobiça dos seus pais e seus patrões”.

Ele enumera ainda os vários casos de doenças e conclui a relação coma causa principal: as longas horas de tralho.

Nas fábricas de fósforos, a metade dos trabalhadores eram crianças com menos de 13 anos e adolescente com menos de 18. Somente a parte mais pobre da população cede seus filhos a esta indústria tão insalubre e imunda. Entre as vítima interrogadas pelo comissário White, 270 não tinham mais que 18 anos; 40 tinham menos de dez anos; 12 de oito anos de idade e 5 de apenas seis anos. A jornada de trabalho nessas fábricas variava entre 12, 14e 15 horas. Eles trabalhavam durante a noite e comiam em horas incertas, quase no mesmo local da produção, tudo empestado pelo fósforo.

Nas fábricas de tapete, nas épocas de grande movimento, como nos meses que antecedem o local, o trabalho durava, quase sem interrupção, das seis da manhã às dez da noite; às vezes, também até altas horas da noite. No inverno de 1862, de 19 meninas d, 6 contraíram doenças por causa do excesso de trabalho. Para mantê las acordadas durante o trabalho era necessário estar sempre gritando e sacudindo-as. As meninas viviam tão cansadas que não podiam manter os abertos. Um operário depôs à Comissão  de Inquérito neste termos:

“Este meu garoto, quando tinha 7 anos de idade, eu o levava às costas, por causa da neve, da casa fábrica, da fábrica para casa. Meu garoto trabalhava normalmente 16 horas por dia. Muitas vezes, tive de me ajoelhar para alimentá-lo, enquanto ele estava na máquina, porque nem podia abandoná-la, nem desligá-la.”

Pelos fins de junho de 1863 , os jornais de Londres destacavam em suas manchetes a morte de uma modista de 20 anos, por excesso de trabalho. Ela morrera nas dependências da manufaturada em que trabalhava. A jornada de trabalho nessa manufatura era de 16 horas e meia por dia. Entretanto, por causa de um baile no palácio do governo, para quem a empresa executavam as encomendas, suas operárias tiveram que trabalhar 26 horas e meia, sem parar. Eram cerca de 60 moças que trabalhavam em péssimas condições, espremidas no reduzido espaço na oficina. A modista das manchetes do dia seguinte, além disso, dormia em um quarto muito estreito e sem ventilação. Ela morrera antes de concluir sua jornada de trabalho. O médico chegou tarde demais. Em seu laudo, além de observar as condições de trabalho das costureiras, assinalou a causa mortis: excesso de trabalho.

Em uma das regiões mais populosas de Londres morriam, anualmente, 31 em cada 1000 serralheiros. E o que pode ter a natureza humana contra essa profissão? Nada! Mas o excesso de trabalho tornou-a destrutiva para o homem.

Assim, o capital tortura o trabalho, o qual, depois de muito sofrer, procura, finalmente, defender-se. Os trabalhadores se organizam e exigem que o Estado determine uma duração para o jornada de trabalho. E o que se pode esperar disso? Resposta fácil, considerando que a lei é feita e aplicada pelos mesmos capitalistas: os operários deverão estar sempre atentos às medidas tomadas pelos patrões e unidos para protegerem a sua vida.

IV

A mais-valia relativa

A força de trabalho, produzindo um valor maior do que ela vale; isto é, uma mais-valia através do prolongamento da jornada de trabalho, conseguiu o capital o alimento suficiente para a sua idade.

O capital vai crescendo e a mais-valia ir aumentando para satisfazer essa crescente necessidade. Mas, aumento de mais-valia, como vimos até agora, não quer dizer outra coisa que prolongamento da jornada de trabalho. É claro que essa jornada tem o seu limite natural, por mais elástica que seja a sua duração. Por mais reduzido o tempo que o capitalista deixa ao trabalhador para que ele satisfaça as suas mais prementes necessidades, a jornada de trabalho será sempre menor do que 24 horas. Portanto, a jornada de trabalho tem um limite natural, e a mais-avlia, por conseguinte, encontra um obstáculo intransponível a jornada de trabalho com a linha AB:

A …………….D……C…………….B

A letra A nos indica o princípio, e B o fim, o limite natural que não se pode ultrapassar. Seja AC parte da jornada em que o operário produz a mais-valia. Como vimos, o nosso fiandeiro recebendo 100 cruzeiros de salário, com uma metade de sua jornada reproduzia o valor de salário, e com a outra metade produzia 100 cruzeiros de mais-valia. O trabalho AC, com o qual se produz o valor do salário, chama-se necessário, enquanto o trabalho CB, que produz a mais-valia, chama-se trabalho excedente ou sobretrabalho. O capitalista está interessado no sobretrabalho, porque é que cria a mais-valia. O sobretrabalho prolonga a jornada de trabalho, a qual encontra o seu limite natural B, representado um obstáculo intransponível para o sobretrabalho e para a mais-valia. E agora, o que fazer? O capitalista encontra logo o remédio. Ele observa que o sobrerabalho tem dois limites, um é B – o fim da jornada de trabalho; o outro é C – quando acaba o tempo de trabalho necessário. O limite B é irremovível: o capitalista não pode criar um dia de mais de 24 horas. Mas o mesmo não acontece com o  limite C. diminuindo o tempo de trabalho necessário C, recuando-o até o ponto D, o sobretrabalho CB aumenta a sua extensão no mesmo tanto representado em DC, que corresponde exatamente à diminuição do trabalho necessário AC. A mais-valia encontra, assim, uma forma de continuar crescendo; agora, não mais de modo absoluto, isto é, simplesmente prolongando a jornada de trabalho. A partir desse momento, a mais-valia cresce em relação ao aumento do sobretrabalho e a correspondente diminuição do tempo trabalho necessário. No primeiro tipo de exploração, que chamamos de mais-valia absoluta, o padrão esticava a jornada de trabalho de 10 para 12 horas; no segundo tipo de exploração, que chamamos de mais-valia, o capitalista a embolsa, diminuindo o tempo de trabalho necessário.

O fundamento da mais-valia relativa é a diminuição do trabalho necessário. A diminuição do trabalho necessário se fundamenta na diminuição do salário; a diminuição do salário se fundamenta, por sua vez, na diminuição do preço dos produtos necessários ao trabalhador; portanto, a mais-valia relativa é fundamentada no barateamento das mercadorias que servem a operário. 

Alguém está se perguntando agora, se não haveria um jeito mais simples para o capitalista arrancar a mais-valia relativa, se ele, por exemplo,ao comprar a mercadoria do trabalho do trabalhador, ou seja, a sua força de trabalho, lhe pagasse um salário menor do que lhe cabe; isto é, não lhe pagasse o justo preço de sua mercadoria. 

De fato, esse expediente é muito usado. Mas, aqui, só vamos considerar a lei de trocas em toda a sua pureza: todas as mercadorias – incluindo a força de trabalho – devem ser vendidas e compradas pelo seu justo valor. E, além disso, o nosso capitalista é um burguês absolutamente honesto, jamais usará de qualquer meio para fazer crescer  o seu capital que não seja inteiramente digno dele.

Suponhamos que em uma jornada de trabalho de 12 horas um operário produza 6 unidades de uma mercadoria. O capitalista vende essas 6 unidade pelo preço de Cr$ 75,00, porque no valor desta mercadoria entram Cr$ 15,00 gastos em matéria-prima e meios de trabalho e mais Cr$ 60,00: Cr$30,00 pelo salário de 12 horas de trabalho e Cr#30,00 de mais-valia; em cada mercadoria, ele tira Cr$5,00 de mais-valia, porque ele desembolsou, por cada uma Cr$7,50, vendendo depois a Cr$12,50 por unidade. Agora, suponhamos que, graças a um novo sistema de trabalho ou simplesmente com o aperfeiçoamento do antigo, a produção se duplique: ao invés de 6 unidades por dia, o capitalista recebe 12. Se antes, em 6 unidades, ele desembolsava Cr$15,00 em matéria-prima e meios de trabalho, em 12 unidades serão necessários Cr$30,00 ou Cr$2,50 por cada uma. Este Cr$30,00 são acrescentados aos Cr$60,00, produto da força de trabalho em 12 horas, totalizando, portanto, Cr$90,00, que é o preço dos 12 artigos, vendidos ao preço unitário de Cr$7,50.

No mercado de hoje, portanto, o capitalista precisa de um espaço maior para vender o dobro de sua mercadoria, o que ele consegue vendendo-a um pouco mais barato. Em outra palavras, o capitalista tem a necessidade de encontrar uma razão pela qual suas mercadorias possam ser vendidas em quantidade duas vezes maior do que antes; e a razão ele encontra, lógico, na baixa preço.

Ele venderá os seus artigos a um preço menor do que Cr$12,50 que era seu preço anterior, mas mais caro do que Cr$ 7,50 que é valor de hoje de cada um. Digamos que a venda a Cr$10,00 e já terá assegurado o dobro: CR$ 60,00 – foi quanto lucrou com a venda de seus produtos – dos quais 30 cruzeiros são de mais-valia e os  outros 30 ele conseguiu da diferença entre o seu valor real e o preço pela qual foram vendidos.

Como vêem, o capitalista não dorme no ponto tirando grande proveito do aumento da produção. Todos os capitalistas são altamente interessado em aumentar a produção de suas indústrias, como acontece hoje em dia em quase todos os ramos da produção. Mas aquele lucro extra que ele retirava da diferença entre o valor da mercadoria e seu preço de venda dura pouco: o novo ou aperfeiçoado sistema de produção passa a ser adotado, necessariamente, pelos outros capitalistas. Resultado: o valor da mercadoria cai para a metade. Antes cada artigo valia Cr$12,50 e agora vale Cr4 6,25. Mas o capitalista continua tendo o mesmo lucro, apenas dobrando a produção. Antes, 30 cruzeiros de mais-valia em 6 unidades; a mesma mais-valia, Cr$30,00, entretanto em 112unidades. Ma como  os 12 artigos foram produzidos no mesmo tempo em que eram produzidos os 6 artigos, isto é, em 12 horas de trabalho, tem-se sempre 30 cruzeiros de mais-valia em uma jornada de 12 horas, mas o dobro da produção.

Quando esse aumento ode produção atingem os produtos necessários ao trabalhador e sua família, cai o preço da força de trabalho e com isso diminui também o tempo de trabalho necessário, aumentando o sobretrabalho, que constitui a mais-valia relativa.

V

Cooperação

Vamos deixar um pouco de lado o nosso capitalista; a esta alturas próspero e rico. Vamos para a sua fábrica e lá teremos o prazer de rever nosso amigo, o fiandeiro. Venham aqui, juntos. Pronto já estaremos.

Púúúú… quanto operário! Não somente um, mas muitos e em pleno trabalho. Todos em silêncio e ordenados, assim como se fossem soldados. Parecendo oficiais, lá estão apontadores e chefes que passeiam no meio deles, dando ordens e vigiando o comprimento fiel do trabalho. Do capitalista, nem sombra. Êi! Espere! Estão abrindo aquela porta de vidro! Quem sabe é o patrão… vamos da uma espiada. O tipo tem mesmo muita figura, é muito sério também, mas não é o patrão, não é o capitalista. Pssiu… (Alguns subordinados se aproximaram do homem; todos solícitos, ouvem as suas ordens com a máxima atenção.) Trimm! Triim! Telefone! A secretária atendeu e está comunicando ao senhor diretor que o patrão o chama imediatamente para uma reunião. Bem, mas onde está o fiandeiro, nosso velho conhecido? Como encontrá-lo no meio de tantos operários?

Ah! está ele! ali no canto, inteiramente concentrado no seu trabalho. Nossa! Como emagreceu! E vejam como está pálido! E que tristeza é aquela? Nem parece o mesmo homem que vimos no merco a tratar de igual para igual, a venda de sua força de trabalho com o homem de dinheiro… mas, nada de comiserações! Hoje ele é um operário como outro qualquer.

Como muito de seus colegas, ele é oprimido por uma jornada de trabalho cavalar, enquanto o homem do dinheiro tornou-se um grande capitalista e vive agora como um deus, lá no alto de seu Olimpo, de onde manda suas ordens através e um verdadeiro séquito de intermediários.

Mas, afinal, o que aconteceu? Nada mais simples. O capitalista prosperou, e teve sucesso. O capital cresceu muito. E, para satisfazer suas novas necessidades, o capitalista estabeleceu o trabalho cooperativo, que é o trabalho realizado com a união de muitas forças. Naquela fábrica, que antes empregava uma só força de trabalho, hoje atuam muitas forças de trabalho em cooperação. O capital saiu de sua infância e se apresenta, pela primeira vez, com seu verdadeiro aspecto.

E que vantagens o capital leva na cooperação?

Pelo menos quatro: primeira vantagem, na cooperação, o capital tem a vantagem de realizar a verdadeira força de trabalho social. Já vimos: força de trabalho social é a força média entre um número de operários, trabalhando com grau médio de habilidade e intensidade, em um determinado centro de produção. Um operário sozinho pode ser mais hábil ou menos hábil do que a força de trabalho média ou social, e esta só pode ser medida juntando na fábrica um grande número de forças de trabalho, trabalhando em cooperação, um com as outras.

A sua segunda vantagem está na economia dos meios de trabalho. O mesmo prédio, as mesma instalações, etc., que antes serviam apenas a um, hoje servem para muitos operários.

A terceira vantagem da cooperação é o aumento da força de trabalho:

O poder do ataque de um esquadrão de cavalaria ou o poder de resistência de um regimento de infantaria difere essencialmente da forças individuais de cada cavalariano ou de cada infante. Do mesmo modo, a soma de forças mecânicas dos trabalhadores isolados difere da força social que se desenvolve quando muitas mãos agem simultaneamente, na mesma operação indivisa, por exemplo, quando é necessário levantar uma carga, girar uma tremenda manivela ou remover um obstáculo.

A quarta vantagem é a possibilidade de combinar a união de forças de trabalho para a execução de trabalhos que uma força isolada jamais conseguiria, e se tentasse o faria de modo muito imperfeito. Quem ainda não viu como 50 operários, em apenas uma hora, podem transportar uma carga enorme, enquanto uma única força de trabalho não conseguiria, nem mesmo em 50 horas, mover um milésimo dessa carga? Quem ainda não viu ainda, numa construção, como12 operários dispostos em fila transportam em uma hora uma quantidade de tijolos imensamente maior do que só operário conseguiria em 12 horas?

A cooperação é o modo fundamental da produção capitalista. Conclui Marx, encerrando esse capítulo.

VI

Divisão do trabalho e manufatura

Quando um capitalista reúne na sua fábrica aos operários e cada um executa as diferentes operações que criam a mercadoria, ele dá à cooperação simples um caráter todo especial: ele estabelece a divisão do trabalho e a manufatura. A manufatura nada mais é do que um mecanismo de produção cujos órgãos são os seres humanos.

Embora a manufatura se baseie sempre na divisão d trabalho, ela tem uma dupla origem: em alguns casos., a manufatura reuni a mesma fábrica os diversos ofícios necessários à produção de uma mercadoria; estes ofícios estavam antes, como todas as atividades artesanais, separados e divididos entre si. Em outros casos, a manufatura dividiu as diferentes operações de um trabalho que antes formavam um todo na produção de uma mercadoria, e junto –as na mesma fábrica.

Por exemplo, uma carruagem, dessas que a gente vê no cinema, era o produto global dos trabalhos de numerosos artesãos independente como o carpinteiro, o estofador, o costureiro, o serrador, correiro, o torneiro , o passamenteiro, o vidraceiro, o pintor, o envernizador, o dourador, etc. A manufatura de carruagens reúnem todos esses diferentes artífices numa mesma fábrica, onde trabalham simultaneamente, colaborando um com outro. Não se pode dourar uma carruagem antes de estar pronta; se, porém, muitas carruagens são feitas ao mesmo  tempo, uma podem ser douradas enquanto outras se encontram em outra fase do processo de produção. A fabricação da agulha, por exemplo, foi dividida pela manufatura em mais de vinte operações parciais, que agora fazem parte do processo de  fabricação total; dessa agulha. A manufatura, portanto, ora reuniu vários ofícios em um só, ora mesmo ofício em muitos.

A força e os instrumentos de trabalho foram também multiplicados pela manufatura, mas ela os tornou terrivelmente técnicos e simples porque foram reduzidos a uma única e invariável operação elementar.

São grandes  as vantagens que o capital realiza na manufatura ao determinar essas tarefas elementares e repetitivas para diferentes forças de trabalho, pois a força de trabalho ganha muito em intensidade e precisão. Todos aqueles poros, aqueles pequenos intervalos entre as diferentes fases de elaboração de uma mercadoria que a gente encontrava n trabalhador isolado, desapareceram, quando, agora, esse mesmo trabalhador executa sempre a mesma operação. O trabalhador daqui prá frente não precisa passar mais anos a fio, aprendendo um ofício; o que ele precisa é apenas executar uma das muitas operações que formam todo um ofício e essa operação ele aprende em muito pouco tempo. Esta diminuição de custos e de tempo é também uma diminuição de coisas necessárias ao trabalhador, ou seja, uma diminuição de tempo de trabalho necessário e um aumento correspondente de sobretrabalho e mais-valia. O capitalista, pois, verdadeiro parasita, às custas de trabalho alheio., cada vez mais rico e o trabalhador, por isso, sofrendo cada vez mais. 

Enquanto a cooperação simples, em geral, não modifica o modo de trabalhar do indivíduo, a manufatura o revoluciona inteiramente e se apodera da força individual de trabalho em suas raízes. Deforma monstruosamente o trabalhador, levando-o artificialmente a desenvolver uma habilidade parcial, as custas da repressão de um mundo de instintos e capacidades produtivos, lembrando aquela prática das regiões platinas onde e mata um animal apenas para tirar-lhe a pele e o sebo.

Não só o trabalho é dividido e suas diferentes frações distribuídas entre os indivíduos, mas o próprio indivíduo é mutilado e transformado em instrumento automático de um trabalho parcial, tornando-se realidade, assim, a fábula absurda do patrício romano Menennius Agrippa, em que o ser humano aparece representado por um único fragmento de seu próprio corpo, o estômago. Dugald Stewart chama os trabalhadores de manufatura autômatos vivos, empregados na fração de um trabalho.

Originariamente, o trabalhador vendia sua força de trabalho ao capital por lhe faltarem os meios materiais para produzir uma mercadoria. Agora, a sua força individual de trabalho não funciona se não estiver vendida ao capital; para poder funcionar, ela necessita daquele centro social que só existe na fábrica do capitalista. O povo eleito trazia escrito na testa que era propriedade de Jeová; do mesmo modo, a divisão  do trabalho ferreteia o trabalhador com a marca de seu proprietário: o capital. Stormch dizia: “o operário que domina um ofício completo pode trabalhar por toda parte para se manter; o outro, o da manufatura, é a penas um acessório e, separado de seus colegas de trabalho, não tem nem capacidade, nem independência, sendo forçado a aceitar a norma que lhe querem impor.

As forças

IX

Acumulação do capital

Acumular significa juntar, ajuntar, amontoar, amontoar riquezas, fazer fortuna. Tudo isso só é possível à acumulação do capital se ele se nutrir sempre mais e mais de mais-valia. Sem se apropriar do trabalho alheio, o capital nem existiria. Mas, aqui estamos começando um novo capítulo:

Quando observamos a fórmula do capital, compreendemos facilmente que a sua a sua conservação é toda baseada em sua sucessiva e contínua reprodução.

O capital, como já sabemos, divide-se em duas partes: constante e variável. O capital constante, representado pelos meios de produção e pelo material de trabalho, sofre um contínuo desgaste durante o processo de trabalho. Os instrumentos se consomem, as maquinas se consomem, o óleo, etc., enfim, o próprio prédio se consome. Ao mesmo tempo, porém, que o trabalho vai consumindo todo esse capital constante, vai também reproduzindo-o na mesma proporção em que o consome. O capital constante encontra-se, pois, reproduzido na mercadoria na mesma proporção em que foi consumido durante a sua  fabricação. O valor consumido pêlos meios de trabalho e pela matéria-prima é sempre exatamente reproduzido no valor da mercadoria.

Do mesmo modo o capital variável. O capital variável, representado pelo valor da força de trabalho, isto é, pelo salário, se reproduz também exatamente no calor da mercadoria. Também já sabemos que o operário, na primeira parte de seu trabalho, produz o seu salário, e, na segunda, a mais-valia. Como o operário só recebe seu salário ao final do trabalho, este só lhe é pago depois que ele já reproduziu o equivalente na mercadoria do capitalista.

Os salários pagos aos trabalhadores são, portanto, reproduzidos inteira e incessantemente pelos próprios trabalhadores. Esta incessante reprodução do fundo dos salários perpetua a submissão do trabalhador ao capitalista. Quando o proletário vende a sua força de trabalho no mercado, ele ocupa o posto que lhe é assinalado pelo modo de produção capitalista e, contribui para a sua manutenção aquela parte do fundo de salários, que deverá, antes, reproduzir com o seu trabalho.

É sempre, sempre, o eterno vínculo da sujeição humana, quer seja sob a forma de escravidão, quer seja sob a forma de servidão, quer seja sob a forma de salário.

Quem vê as coisas superficialmente, pensa que o escravo trabalha gratuitamente. Ele não vê que o escravo devia, antes de mais nada, devolver ao seu senhor tudo quanto este gastou para a sua manutenção. E, vejam bem, muitas vezes a manutenção do escravo era mais cara do que a do assalariado, pois o seu senhor estava altamente interessado em sua conservação, como estava na conservação de uma parte de seu próprio capital. O servo do sistema feudal, juntamente com a terra, à qual está preso, pertence ao seu senhor; para o mesmo observador superficial, este servo fez progressos em relação ao escravo, pois se vê claramente que ele entrega somente uma parte ao seu senhor, enquanto a outra parte de seu trabalho ele o emprega na pouca terra que lhe é determinada para ganhar o seu sustento. E o assalariado aprece a esse mesmo tipo de observador como um indivíduo muito mais evoluído, em comparação ao servo da gleba, porque o trabalhador lhe parece inteiramente livre, recebendo o valor do próprio trabalho.

Doce ilusão! Se o trabalho pudesse realizar por si mesmo o valor do próprio trabalho, se ele não precisasse vender a sua força de trabalho, o modo de produção capitalista nem poderia existir. E já sabemos por quê. O trabalhador não pode obter outra coisa que não seja o valor de sua força de trabalho , que é a única coisa que pode vender, porque é o único bem que possui no mundo. O produto do trabalho pertence ao capitalista, o qual paga ao operário o salário, isto é, a sua manutenção. Do mesmo modo que o pedaço de terra, o tempo e os instrumentos necessários para trabalhá-la, que o senhor deixa por conta do servo, são a soma dos meios que este tem para se manter, enquanto deve trabalhar todo o resto do tempo para o seu senhor.

O escravo, o servo e o operário trbalham todos os três, uma parte para produzir a sua manutenção e outra parte absolutamente para o lucro de seu patrão. Representam, pois, três formas diversas do mesmo vínculo de sujeição e exploração humana. É sempre a sujeição do homem privado de qualquer acumulação primitiva (isto é, dos meios de produção, que são os meios de vida) ao homem que possui uma acumulação primitiva, os meios de produção, a fonte da vida.

A conservação do capital, a reprodução do capital, é, conseqüentemente, no modo de produção capitalista a conservação deste vínculo de opressão e exploração humana.

Mas o trabalho não somente reproduz o capital, mas também produz mais-valia, que muitos chamam de renda do capital. Quando o capitalista, anualmente, acrescenta  ao seu capital uma parte ou toda sua renda, temos uma acumulação de capital, que crescerá progressivamente. Com a reprodução simples o trabalho conserva o capital; com a acumulação de mais-valia, o trabalho faz o capital crescer.

Quando essa renda se junta, se funde com o capital, parte dela é empregada em meios de trabalho, parte em matéria-prima e parte em força de trabalho. É agora que o sobre trabalho passado, o trabalho passado não pago, vai fazer crescer o volume do capital. Uma parte do trabalho não pago do ano passado serve para pagar o trabalho necessário deste ano. E é isso que faz o sucesso do capitalista, graças ao engenhoso mecanismo da produção moderna.

Uma vez aceito este sistema da moderna produção, todo ele baseado na propriedade individual e no salário, nada se encontra a dizer cuja conseqüência não seja derivada da acumulação capitalista. O que importa ao operário Antônio se os Cr$ 100,00 que lhe pagam de salário representam o trabalho não pago do operário Pedro? O que ele tem direito de saber é se os Cr$ 100,00 são o justo preço da sua força de trabalho, quer dizer, se são o exato equivalente das coisas que lhe são necessárias em um dia; em uma palavra, se a lei de troca foi rigorosamente observada.

Quando o capitalista começa a acumular capital, se desenvolve nele uma nova virtude, toda sua: a tal virtude da abstinência, que consiste em limitar a própria despesa, para empregar uma maior parte de sua renda na acumulação.

A vontade do capitalista e a sua consciência refletem as necessidades do capital que ele representa; assim, o capitalista vê no seu próprio consumo pessoal uma espécie furto, ou pelo menos de empréstimo feito à acumulação. Aliás, basta olhar em certos livros de contabilidade as despesas pessoais lançadas contra o capital, ao lado das contas a pagar do capitalista. Acumular, enfim, é conquistar o mundo da riqueza social, ampliar a sua esfera de dominação pessoal, aumentar o número de súditos, ou seja, sacrificar-se a uma ambição insaciável.

Lutero mostra muito bem, com o exemplo do usurário (esse tipo imortal de capitalista fora de moda), que o desejo de dominar é o motor do enriquecimento:

“A simples inteligência levou os pagãos a considerarem o usurário como um assassino e quatro vezes ladrão. Mas nós, cristãos, o tratamos com toda a honra, quase o adoramos por causa de seu dinheiro. Quem extrai, rouba e furta o alimento do outro é um homicida moral, como o que mata uma pessoa de fome ou a arruina totalmente. E é o que faz o usurário. Entretanto, senta-se tranqüilamente em sua cadeira, quando deveria estar, justamente, na forca, sendo devorado por tantos urubus quantos fossem os cruzeiros por ele roubados, se tivesse carne para tão grande quantidade de urubus. Mas hoje em dia só prendemos e enforcamos os pequenos ladrões… enquanto isso, os grandes ladrões vão se pavoneando em ouro e seda… Depois do diabo, o maior inimigo do homem na terra é o avarento, é o usuário, pois quer ser Deus dominando todos os homens. Os soldados, os invasores, os hereges turcos, os ditadores são também homens maus, todavia, têm de deixar os outros viverem e confessam que são maus e inimigos. Podem, e às vezes até são obrigados a se apiedarem de algumas pessoas. Mas o usurário, com sua avareza, quer que o mundo se mate e morra, de fome e de sede, de luto e de miséria; ele mesmo o faria, se pudesse, para que tudo fosse dele, assim todos se curvariam diante dele, como seus eternos escravos. Ostenta elegância e aparenta uma limpeza impecável para ser visto e badalado como um homem honrado e bondoso… Mas o usurário é um monstro enorme e devorador, pior do que satanás. Já que prendemos e matamos um ladrão de rua, os assassinos e os assaltantes, do mesmo modo deveríamos prender e matar e decapitar todos os usurários.”

Eis aí, de Lutero, reformador religioso, um discurso violento contra os usurários. Continuemos com a violência capitalista, propriamente dita:

A acumulação capitalista exige um aumento de braços. O número de trabalhadores deve ser aumentado quando se quer converter uma parte da renda em capital variável. O organismo mesmo da reprodução capitalista é de tal modo que o trabalhador conserva a sua força de trabalho na geração seguinte, da qual o capital arregimenta nova força de trabalho, para continuar o seu incessante processo de reprodução. Mas o trabalho que o capital exige hoje é superior ao que exigia antes e, conseqüentemente, o seu preço deve subir. E aumentariam de fato os salários, se na própria acumulação do capital não se encontrasse uma razão para fazê-los baixar.

É verdade que a renda deve ser convertida, parte em capital variável; isto é, parte em meios de trabalho e matéria prima, e parte em força de trabalho, mas é preciso considerar a acumulação do capital com o aperfeiçoamento dos velhos sistemas de produção, com os novos sistemas de produção e a máquina: tudo coisas que fazem aumentar a produção e diminuir o preço da força de trabalho, o que já sabemos. À medida que cresce a acumulação do capital, a sua parte variável diminui, enquanto sua parte constante aumenta. Isto é, aumentam as fábricas e instalações, a máquina com suas matérias auxiliares, mas, ao mesmo tempo, e na proporção deste aumento, com a acumulação do capital, diminui a necessidade de mão-de-obra, a necessidade de força de trabalho. Diminuindo a necessidade de mão-de-obra, diminui a procura e finalmente diminui o preço.