Revolta da Cachaça

A Revolta da Cachaça foi uma guerra civil na capitania do Rio de Janeiro, que envolveu os senhores de engenho da cana-de-açúcar de São Gonçalo e Niterói contra os proprietários do Rio de Janeiro. Foi um sintoma da crise da economia açucareira, que cada vez mais enriquecia algumas poucas famílias.

A revolta também recebe o nome de Revolta do Barbalho, pelo seu líder, Jerônimo Barbalho Bezerra, proprietário de engenho de São Gonçalo.

Antecedentes

Há anos, Portugal, como metrópole mercantilista, tinha o monopólio sobre a indústria de vinho e aguardente. Enquanto o Brasil enviava matéria prima, as mercadorias eram industrializadas pelos portugueses. 

Assim sendo, a produção da cachaça era ilegal. Em 1659, a Coroa de Portugal expediu ordem para destruir todos os alambiques da colônia, bem como aos navios que transportavam o produto, iniciando uma grande repressão.

Ao mesmo tempo, o açúcar brasileiro já começava a ser substituído no mercado internacional pelo açúcar das colônias holandesas e francesas nas antilhas e no caribe. Por isso, muitos senhores de engenho viam na produção e no tráfico ilegal de cachaça para Angola uma fonte de lucro alternativa.

Enquanto isso, o Rio de Janeiro era controlado desde sua fundação pela família Sá, fundadores da cidade que haviam nomeado a maioria dos governadores da capitania e tinham os melhores engenhos, tratando o território como negócio de família.

Em 1659, Salvador Corrêa de Sá e Benevides, herói militar na expulsão dos holandeses de Angola, tornou-se governador do Rio de Janeiro pela terceira vez, sendo que agora também era Governador e Capitão Geral da Repartição do Sul. 

Para cobrir o déficit dos cofres do Rio de Janeiro, resultante da má gestão dos fundos para interesses particulares e da família, instaurou uma forte taxação aos fabricantes de aguardente, gerando uma forte animosidade entre os senhores de engenho “alternativos” que se encontravam principalmente em São Gonçalo e Niterói.

Junto a isso, Benevides passou a ser muito mal visto entre a população. Primeiro, por ser casado com uma espanhola, e a União Ibérica já havia acabado, predominando um sentimento nacionalista no Brasil e em Portugal. Segundo, pelos desmandos da família Sá na região Sul do Brasil – havia boatos de enriquecimento ilícito, assassinato de opositores; e também pelos privilégios que a família tinha no Rio de Janeiro. 

A Revolta da Cachaça

Em São Gonçalo, o proprietário de engenho Jerônimo Barbalho Bezerra começou uma conspiração contra Salvador Corrêa de Sá e Benevides. Uma verdadeira insurreição, que teve apoio de outros senhores de engenho, mas também de militares e outros funcionários públicos de baixo escalão, que estavam com salários atrasados, diante do déficit público. A insurreição começou em novembro de 1660.

Jerônimo liderou revoltosos, que atravessaram a baía da Guanabara e convocaram a toque de sinos o povo a se reunir diante do prédio da Câmara Municipal, exigindo o fim da cobrança de taxas e a devolução do que já havia sido arrecadado. A insurreição fez com que Tomé de Sousa Alvarenga, tio do governador e em exercício durante sua ausência, tivesse de ceder e fugir no Mosteiro de São Bento. No entanto, foi feito prisioneiro.

Os rebeldes tomaram conta da cidade do Rio de Janeiro, saquearam as casas de famílias Correia e de Salvador de Sá, e Alvarenga foi levado prisioneiro para Portugal, junto com uma lista de acusações contra sua família.

Foi empossado governador Agostinho Barbalho, que recusou o cargo inicialmente, mas foi obrigado pelo povo a assumir. Ele, no entanto, capitulou e fez concessões à família Sá. Assim sendo, Salvador de Sá, que já havia reunido tropa mercenária de bandeirantes paulistas na Capitania de São Vicente e tinha apoio de tropas enviadas pela administração colonial na Bahia, reconheceu o novo governador – causando a insatisfação dos revoltosos.

Em 6 de abril de 1661, as tropas de Salvador Corrêa retomaram o Rio de Janeiro, cercando a cidade pelo litoral, enquanto o militar e capitão do Sul brasileiro invadiu a cidade pelo interior. Os revoltosos foram presos sem resistência. Todos os líderes foram presos e enviados a Portugal, com exceção de Jerônimo Barbalho, único condenado à morte, que foi decapitado e sua cabeça afixada no pelourinho .

No entanto, diante da brutalidade e da administração familiar da capitania, Portugal deu razão aos revoltados, que foram libertados. Em 1661, a regente Luísa de Gusmão liberou a produção da cachaça no Brasil, desenvolvendo o tráfico com Angola e a economia do Rio de Janeiro. Localmente, o comércio continuava proibido, mas não havia repressão e autoridades locais participavam do contrabando.

A proibição local foi revogada em 1695 e a produção de cachaça foi aumentada.

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Revolta da Cachaça no Rio de Janeiro | UFF
Locais Envolvidos

Rio de Janeiro, Brasil, Portugal

Duração

8/11/1660 – 6/4/1661

Pessoas Chave

Jerônimo Barbalho Bezerra, Agostinho Barbalho, Diogo Lobo Pereira, Jorge Ferreira de Bulhão, Lucas da Silva; Salvador Corrêa de Sá e Benevides, Tomé de Sousa Alvarenga

Resumo

Guerra civil que envolveu os senhores de engenho da cana-de-açúcar de São Gonçalo e Niterói contra os proprietários do Rio de Janeiro, por conta de taxações abusivos e a repressão ao comércio da cachaça. Sintoma de crise da economia açucareira