Leon Trótski

Lev Davidovich Bronstein (1879-1940) foi um dos principais líderes da Revolução Russa de 1917 e o principal oponente da burocracia stalinista que corrompeu o Estado operário soviético após o processo revolucionário, usurpando o poder da classe operária. Ao lado de Vladimir Lênin, foi responsável pela implementação da primeira ditadura do proletariado nacional da história da humanidade.

A infância

O revolucionário nasceu no dia 7 de novembro (26 de outubro, no antigo calendário juliano utilizado pelo Império Russo) sob o nome de Lev Davidovich Bronstein, numa família ucraniana de origem judaica e pequeno-burguesa, sendo seu pai um médio proprietário de terra em Ianovka (atual Bereslavka). Ele foi o quinto filho de David Leontyevich Bronstein (1847-1922) e Anna Lvovna (1850-1910), que cuidavam dos negócios agrários da família.

Sua infância se deu quase totalmente em Ianovka, um pequeno vilarejo na região central da Ucrânia, então parte do Império czarista, onde havia forte presença da comunidade judaica. Como ele mesmo conta em sua autobiografia (Minha Vida, 1930), sua vida não foi de “fome e frio”, como uma parcela considerável – e majoritária – da população russa que vivia na intensa miséria.

“Minha família já havia conquistado uma competência na época do meu nascimento. Mas era a dura competência de pessoas que ainda saíam da pobreza e não tinham vontade de parar no meio do caminho. Cada músculo estava tenso, cada pensamento voltado para trabalho e economia. Essa rotina doméstica deixava apenas um lugar modesto para as crianças. Não conhecíamos a necessidade, mas também não conhecíamos as generosidades da vida – suas carícias”.

Ele conta que sua infância não foi “uma campina ensolarada, como para a pequena minoria” de filhos das classes dominantes, ao mesmo tempo que não foi “uma caverna escura de fome, violência e miséria, como é para a maioria”. “Minha infância foi a acinzentada infância de uma família de classe média baixa, passada em um vilarejo num canto obscuro onde a natureza é ampla e as maneiras, pontos de vista e interesses são limitados e estreitos”.

A família de Trótski era, portanto, uma família pequena-burguesa, intermediária socialmente, que saía da pobreza ao conquistar um pedaço de terra para trabalhar e cuja sobrevivência dependia da “dura competência de pessoas” que, ao sair da condição de não-proprietária, “não tinham vontade de parar no meio do caminho”.

Desta forma, seus pais conseguiram lhe garantir uma certa educação formal, algo que era impensável para a maioria da população que até 1917, ano da revolução proletária, era esmagadoramente analfabeta.

Até seus oito anos de idade, Trótski foi educado à moda peculiar dos judeus que viviam no campo. “Por tantos rublos e tantos sacos de farinha, o professor encarregou-se de me instruir em sua escola na colônia, em russo, aritmética e o Antigo Testamento no hebraico original”, conta ele em sua autobiografia.

A colônia era localizada em Gromokley, cuja distância para Ianovka era de cerca de 4,2 quilômetros. “Através da colônia corria uma ravina: de um lado ficava o assentamento judeu, do outro, o alemão. As duas partes se destacaram em nítido contraste. Na seção alemã, as casas eram arrumadas, em parte cobertas com telhas e em parte com juncos, os cavalos grandes, as vacas elegantes. Na seção judaica, as cabanas estavam em ruínas, os telhados esfarrapados, o gado esquelético” (Minha Vida, 1930).

Trótski passou a morar com seus tios, que tinham uma casa quase na entrada da colônia. Segundo ele, seu tio Abram, com quem morava, “tratava seus sobrinhos e sobrinhas com total indiferença” e até uma certa maldade.

“Muitas vezes eu saía da escola e voltava para minha aldeia, permanecendo lá quase uma semana. Eu não tinha amigos íntimos entre meus colegas de escola, pois não falava iídiche. A temporada escolar durava apenas alguns meses”. (idem.)

Mesmo assim, o jovem Lev Bronstein conta que neste período aprendeu a ler e a escrever.

Trótski aos 8 anos de idade
Trótski aos 8 anos de idade, em 1888

Em 1888, Lev, com 8 anos de idade, foi enviado a Odessa para estudar numa escola de língua alemã, que foi perdendo seu aspecto germânico pela política de russificação do Império na época. A decisão ocorreu por incentivo de um de seus primos, Moissei Filippovich Schpentzer, que segundo Trótski, mesmo após ter sido impedido de cursar faculdade “por uma pequena ofensa política”, era o mais culto na família e tinha respeito do núcleo familiar.

O primo era da parte materna da família, que conforme destaca Isaac Deutscher em seu primeiro volume da trilogia escrita sobre a vida de Trótski, “O Profeta Armado”, não era oriunda do campo, mas de uma cidade aos entornos de Odessa, e portanto compunha uma classe média urbana um pouco mais culta em relação aos camponeses.

Odessa era uma cidade que passou, alguns anos antes, por um importante processo de desenvolvimento econômico (a partir de seu porto no Mar Negro) e cultural – diante do movimento revolucionário pela independência de diversos países (Grécia, Albânia, Sérvia…) que compunham os impérios ao redor da região (Russo, Austríaco, Otomano…). Assim, era uma cidade cosmopolita e urbana, o que favoreceria, mais adiante, a integração de Trótski ao movimento operário revolucionário.

O jovem viveu seis anos com a família de seu primo intelectual, que lhe apontou o caminho do senso crítico e do conhecimento de clássicos da literatura, ao mesmo tempo em que vivenciava as mazelas do Império czarista, profundamente repressivo contra os jovens em seus ginásios. Com as orientações do primo, porém, Lev sempre foi um grande estudioso.

Primeiras atividades políticas

As primeiras atividades políticas do revolucionário se dão 1896, aos 17 anos, quando ingressa no movimento populista russo, de caráter semi-anarquista, num momento em que os antigos militantes do movimento, como George Plekhanov, já estavam o superando e aderindo ao marxismo, formando organizações socialistas. Por isso e por seu brilhantismo, Trótski passa poucos anos com os populistas, aderindo ao marxismo em seguida.

Todavia, ainda com os populistas, o jovem militante já mostra sua dedicação com a luta do povo, ao mudar-se para a cidade portuária Nikolaev, onde encontrava-se com jovens ligados ao movimento operário e antigos exilados políticos. Tornou-se muito próximo do jardineiro da casa onde morava de aluguel, um checo chamado Shvigovsky.

“Foi o primeiro operário que conheci que assinava jornais, lia alemão, conhecia os clássicos e participava livremente das discussões entre marxistas e populistas. Sua cabana de um cômodo no jardim era o ponto de encontro de estudantes visitantes, ex-exilados e jovens locais. Podia-se obter um livro proibido por meio de Shvigovsky”. (Minha Vida, 1930)

“As conversas dos exilados eram pontuadas com os nomes dos populistas Jelyabov, Perovskaya, Figner, que foram tratados não como heróis lendários, mas como pessoas reais com as quais os amigos mais velhos desses exilados, senão eles próprios, estavam familiarizados. Tive a sensação de que estava entrando em uma grande corrente como um pequeno elo”. (idem.)

Sobre sua aderência inicial ao populismo, Trótski explica que “naquela época, os social-democratas ainda não haviam voltado do exílio, iam para ele. Os dois movimentos cruzados deram origem a um turbilhão de teorias. Por um tempo, também fui atraído por elas. Havia um odor de putrefação emanando do populismo. O marxismo era repelido por sua chamada ‘estreiteza’. Ardendo de impaciência, tentei apreender as idéias instintivamente, mas não eram tão fáceis de dominar”.

Ao mesmo tempo em que estava iniciando a leitura dos clássicos do movimento operário russo e internacional, em 1897, Trótski, aproximando-se do marxismo, impulsiona a criação da União Operária do Sul da Rússia em Nikolaev, e passa a escrever panfletos e realizar agitação política contra o regime czarista junto aos operários e estudantes da cidade.

Jovem Trótski em 1897
Jovem Trótski em 1897

Em 1898, ele e mais 200 membros da União serão presos em uma gigantesca onda de repressão policial contra os membros da organização. Trótski, porém, não será preso em Nikolaev, mas no caminho de volta entre Ianovka, onde tinha ido passar um tempo com a família, e a cidade portuária – “com uma grande pasta cheia de manuscritos, desenhos, cartas e todo tipo de outro material ‘ilegal’” (idem.).

Trótski é condenado a 4 anos de prisão em um julgamento que o levou a diversas cadeias pelo país. Neste processo, encontra com vários revolucionários da época, dentre os quais muitos marxistas que lideravam os movimentos estudantil e operário de diversas cidades – que haviam tomado conta da Rússia na última década do século XIX.

Na prisão, Trótski passa a se aprofundar nas obras marxistas, enquanto o Partido Operário Social-Democrata Russo, fundado por Lênin, realiza seu primeiro Congresso (que é reprimido), em março de 1898. A partir daí, tomando conhecimento por intermédio dos outros presos, Trótski declara-se marxista.

Leon Trótski com os militantes de seu grupo em 1897. Sua 1ª mulher: Aleksandra Sokolovskaya
Leon Trótski com os militantes de seu grupo em 1897. Em pé, sua 1ª mulher: Aleksandra Sokolovskaya

Quando estava preso em Moscou, após ter passado por Odessa, Nikolaev, Kherson, etc. Trótski se casa com uma companheira militante Aleksandra Sokolovskaya (1872–1938), que também havia sido presa. Os dois são exilados na Sibéria, onde têm duas filhas, Zinaida (1901-1933) e Nina (1902–1928), nascidas durante o exílio ordenado pelo governo.

Trótski passa a conhecer as primeiras divergências dentro do movimento marxista russo, entre os chamados economicistas, que defendiam a luta econômica acima da luta política, e ala que publicava no jornal Iskra, editado por Lênin, que defendia a luta política geral contra o Império Russo (Ver: Quer Fazer, de Lênin), com quem Lev se alia e passa a escrever para o jornal.

Com a ajuda de sua esposa, em 1902, após 4 anos de prisão e exílio, Trótski foge da Sibéria escondido em uma carga de feno na carroça de um camponês que estava a caminho para Irkutsk, onde foi abastecido por amigos, trocou suas roupas e adentrou no caminho do Trans-Siberian. Nessa ocasião, com um passaporte falso, Lev Davidovich Bronstein passa a usar o nome de um dos seus carcereiros em Odessa: Leon Trótski.

POSDR e Iskra

O revolucionário vai para Londres, onde encontra diversos dirigentes do POSDR que editavam o Iskra, como Lênin, Plekhanov e Julius Martov. Com mais liberdade para se dedicar às atividades revolucionárias, tornou-se um dos principais redatores do jornal com o qual se tinha alinhado nos anos de prisão.

Quatro meses após a chegada de Trótski, que assinava como “Pero”, em março de 1903, Lênin escreve uma carta para Plekhanov indicando o jovem revolucionário de 23 anos para fazer parte do conselho editorial do jornal, que era um cargo de dirigente da organização.

Na época, no entanto, o partido já estava divido entre duas facções – a “velha guarda”, liderada por Plekhanov, Vera Zasulich e Pavel Axelrod e composto por antigos militantes populistas e anarquistas que ajudaram a levar o marxismo para a Rússia; e a “nova guarda”, liderada por Lênin e Martov e composto por um setor mais jovem do partido, que havia liderado as grandes mobilizações do final do século anterior.

Leon Trótski em 1902
Leon Trótski em 1902

Em Minha Vida, Trótski oferece um panorama da situação, destacando o passado “heróico” dos fundadores de primeira organização marxista russa, o grupo “Libertação do Trabalho”, Plekhanov, “brilhante intérprete marxista, professor de várias gerações, teórico, político, publicitário e orador, com uma reputação europeia e conexões europeias”; e Zasulich, que “tinha uma mente extremamente perspicaz, uma formação extensa, principalmente histórica, e uma rara intuição psicológica”, e que tinha sido responsável pela conexão entre a organização e um dos fundadores do socialismo científico Friedrich Engels.

“Ao contrário de Plekhanov e Zasulich, que estavam mais intimamente ligados ao socialismo latino, Axelrod representou no ‘Grupo’ as idéias e a experiência da social-democracia alemã. Nesse período, entretanto, Plekhanov já estava começando a entrar em declínio. Sua força estava sendo minada por aquilo que dava força a Lênin – a abordagem revolucionária. Toda a atividade de Plekhanov ocorreu durante os dias teóricos preparatórios. Ele foi propagandista e polemista-chefe marxista, mas não um político revolucionário do proletariado. Quanto mais se aproximava a sombra da revolução, mais evidente se tornava que Plekhanov estava perdendo terreno. Ele não podia deixar de ver por si mesmo, e essa era a causa de sua irritabilidade com os homens mais jovens”. (Minha Vida, 1930).

“O líder político do Iskra era Lenin. Martov era o poder literário; ele escrevia tão fácil e continuamente quanto falava. Trabalhando lado a lado com Lenin, Martov, seu companheiro de armas mais próximo, já estava começando a se sentir pouco à vontade. Eles ainda se dirigiam um ao outro como “tu”, mas uma certa frieza estava começando a se infiltrar em suas relações mútuas. Martov viveu muito mais no presente, em seus acontecimentos, em sua obra literária atual, nos problemas políticos da época, nas notícias e nas conversas; Lênin, por outro lado, embora estivesse firmemente entrincheirado no presente, estava sempre tentando romper o véu do futuro. Martov desenvolveu inúmeros e frequentemente engenhosos palpites, hipóteses e proposições que até ele prontamente esqueceu; enquanto Lenin esperou até o momento em que ele precisava deles. A elaborada sutileza das ideias de Martov às vezes fazia Lenin balançar a cabeça em alarme. As diferentes linhas políticas ainda não haviam tido o tempo de se formar; na verdade, elas nem haviam começado a se fazer sentir. Posteriormente, por meio da cisão no Segundo Congresso do partido, os adeptos do Iskra foram divididos em dois grupos, os ‘duros’ e os ‘moles’”.

Portanto, tinha-se de um lado os “velhos” e, por outro, os “novos”, cujas lideranças racharão no II Congresso do partido que ocorreu em seguida. Trotski conta que, ao fugir do exílio e se reunir com os dirigentes, ainda não tinha conhecimento das diversas facções dentro do partido.

Por ter sido indicado por Lênin como sétimo membro da direção do Iskra, que estava dividido em duas facções, e sabendo que Trótski era próximo da política leninista, Plekhanov sempre tivera uma relação pouco amigável com ele. Por oposição do velho dirigente, o jovem não se tornou membro oficial do conselho editorial, mas passou a participar e opinar em suas reuniões, aliando-se com o posicionamento de Lênin e Martov.

Por volta dessa época, conhece Natália Sedova, companheira de partido com quem se casará e, em seguida, terá dois filhos, Lev Sedov (1906-1938) e Sergei Sedov (1908–1937).

Posição no II Congresso do POSDR

Trótski participa do histórico II Congresso do POSDR, que serviu para fundamentar o programa do partido e seus fundamentos e regras, uma vez que o primeiro, em 1898, havia sido reprimido pela polícia. O II Congresso ocorre em Londres, em agosto de 1903. No evento, o Iskra consegue derrotar a posição dos economicistas e o Bund judaico, que queria se manter como organização independente dentro do partido.

Em seguida, as discussões giraram em torno efetivamente da organização do partido. O Iskra, que tinha a maioria dos delegados, dividiu-se em dois, a ala esquerda que tinha apoio da maioria dos delegados (Bolcheviques) e foi liderada por Lênin, e a ala direita liderada por Martov, que eram minoria (Mencheviques).

Os bolcheviques propunham uma organização centralizada e cujos militantes teriam de cumprir tarefas estabelecidas para serem membros efetivos do partido, enquanto os mencheviques defendiam um partido sem reais deveres para os militantes e descentralizado – os “duros” e os “moles”, mencionados por Trótski.

Apesar de ter sido, no futuro, o principal dirigente bolchevique – depois de Lênin – na época ele assumiu uma posição centrista e acabou se alinhando com os mencheviques no II Congresso, enquanto Plekhanov se juntou a Lênin.

Trótski explica que “a divisão veio inesperadamente para todos os membros do congresso” (Minha Vida, 1930). Os motivos pelo qual ele se aliou à ala “mole”, os mencheviques, segundo sua autobiografia, foram suas “próximas conexões com Martov, Zasulich e Axelrod” e sua incompreensão, no momento, sobre a importância do centralismo dentro do partido.

Ele ficará pouco tempo junto aos mencheviques, entretanto. Com o fim do II Congresso, Plekhanov se aliou aos mencheviques, junto aos outros “velhos”, enquanto ele rompeu com a facção por não concordar com o programa menchevique para a revolução. A ala direita do partido defendia uma revolução por etapas, em aliança com a burguesia liberal, enquanto a ala esquerda e Trótski defendiam que, apesar do caráter atrasado da Rússia, a revolução tinha de ser liderada pela classe operária em aliança com os camponeses, isto é, a revolução deveria ser um fenômeno dirigido pelos explorados contra, ao mesmo tempo, a burguesia e o Império.

Sobre o partido, porém, Trótski assume uma posição centrista, buscando uma unificação entre as duas tendências e, por isso, não se definia como bolchevique, mas como um “social-democrata sem facção”. Durante os anos seguintes até o momento da Revolução de 1917, Trótski teve uma série de polêmicas com Lênin, nas quais o dirigente bolchevique estava certo, como ele mesmo reconhece.

Revolução de 1905, prisão e emigração

Nem por isso, ele deixou de ser um importante dirigente operário do partido. Quando estoura a Revolução de 1905, Trótski tem uma participação ativa na organização do movimento grevista, em janeiro. Perseguido pela polícia, teve de fugir para a Finlândia, onde passou a elaborar a teoria da Revolução Permanente, na qual concorda com Lênin sobre o papel da classe operária na revolução, em oposição à política menchevique.

Diante do fortalecimento do movimento grevista em outubro do mesmo ano, Trótski volta à Rússia e agita os operários de São Petesburgo – cidade mais industrializada do país. Ele funda com Alexander Parvus, um social-democrata alemão, o jornal Gazeta Russa e aumenta sua circulação para 500 mil, tamanha era a mobilização operária no período. Também, com Martov, funda o Nachalo, que torna-se extremamente popular.

Apesar de ter elaborado a ideia da formação de um conselho de deliberação da classe operária (Soviete), no momento em que chega na cidade de São Petersburgo, a organização já existia, mas o dirigente revolucionário tem um papel chave em desenvolvê-la. Com sua popularidade, ele é eleito vice-presidente do Soviete mais importante do país e, após a prisão de Georgy Nosar (Pyotr Khrustalyov), o presidente, assume a liderança do organismo.

Durante seu mandato como chefe dos operários de São Petersburgo, o Soviete declara guerra ao regime czarista, em 2 de dezembro, e no dia seguinte é rendido por tropas imperiais, que prendem seus deputados. No início de 1906, Trótski e outros líderes soviéticos são acusados de tentarem derrubar o governo do Czar. Em outubro de 1906, a Revolução já derrotada e o movimento operário arrefecido, o presidente do Soviete é condenado a uma vida de exílio na Sibéria.

Trótski, preso em 1905
Trótski, preso em 1905

Durante este momento, Trótski aproveita para escrever a sua concepção fundamental sobre a revolução proletária. A partir das experiências do final da década de 1890 e da Revolução 1905, ele aponta o caráter fundamental da classe operária no processo revolucionário russo, apesar de ser um país com um proletariado urbano pouco numeroso.

Para Trótski, assim como para Lênin, mas em oposição ao que diziam os mencheviques, a revolução na Rússia teria de ter como agente central a classe operária, que apesar do tamanho, não deixava de ser a vanguarda política do país e uma classe extremamente poderosa. Trótski defendia que a burguesia russa era demasiadamente fraca para combater o imperialismo, além de capacho, e que os problemas não resolvidos por falta de uma revolução burguesa no país (como a reforma agrária) seriam resolvidos pela revolução proletária, que seria permanente até o ponto de atingir o socialismo.

A teoria da Revolução Permanente, portanto, era elaborada, numa conclusão que concordava com as análises de Lênin. A consolidação da teoria, porém, só chegará na década de 1920, no combate de Trótski à “teoria” do Socialismo em um só país defendida pela burocracia stalinista.

Nesta época, preso, aguardando ser enviado à Sibéria, Trótski escreve o livro “Balanços e Perspectivas”, um de seus livros mais importantes na primeira década do século XX, onde a partir de uma concepção marxista sobre a Revolução de 1905 chega à conclusão já mencionada. Outro livro importante de Trótski neste período é “1905”, justamente tratando sobre a revolução na qual ele foi um dos agentes centrais.

Trótski, em 1905, aguardando julgamento
Trótski, em 1905, aguardando julgamento

Em prefácio de 1919 do livro “Balanços e Perspectivas”, Trótski escreve que o processo revolucionário “provocou sérios desacordos no seio do próprio movimento social-democrata quando os acontecimentos vieram dar a ela um alcance prático. […] O ponto de vista dos mencheviques era o de que a nossa revolução seria uma revolução burguesa, que conduziria naturalmente à transferência do poder para a burguesia, criando assim as condições de um regime parlamentar burguês. Os bolcheviques, pelo contrário, mesmo reconhecendo que a futura revolução teria inevitavelmente um caráter burguês, apontavam como tarefa da revolução a instauração de uma república democrática por meio da ditadura do proletariado e do campesinato”.

Trótski, Alexander Parvus e Leo Deutsch na prisão em 1906
Trótski, Alexander Parvus e Leo Deutsch na prisão em 1906

Sendo escoltado para o exílio na Sibéria, Trótski consegue escapar em Berezov e foge para Londres. Lá, participa do V Congresso do POSDR, onde atua novamente em defesa de uma conciliação entre as duas principais facções, de forma centrista.

Em outubro, muda-se para Viena, onde viverá durante sete anos, atuando junto aos sociais-democratas austríacos e alemães. Em 1908, começa a publicar e editar o jornal Pradva, fundado por um capitalista do ramo ferroviário, V.A. Kozhevnikov, que passou o conselho editorial para membros do POSDR. No jornal, Trótski foi responsável em introduzir o formato tablóide e buscou financiamento para o jornal entre o partido. Em 1910, os bolcheviques, sob orientação de Lênin, decidiram transformar o jornal, já popular entre os trabalhadores russos, em seu órgão principal.

Trótski em 1910 com o Pravda de Viena
Trótski em 1910 com o Pravda de Viena

Na tentativa de unificar o partido, o órgão tornou-se o jornal do partido em geral, com Trótski, bolcheviques e mencheviques em seu conselho editorial, após conferência em Paris em 1910 para unificar o partido. O bolchevique Lev Kamenev foi apontado pelos bolcheviques como membro do conselho, mas acabou resignando em agosto de 1910, a unificação tendo falhado.

Os bolcheviques, em seguida, retomaram um novo jornal com o mesmo nome. Trótski entra novamente em conflito com os bolcheviques após eles decidirem usar-se do nome “Pravda” em sua nova publicação.

Além disso, de 1912 a 1914, Trótski realiza uma série de críticas aos bolcheviques contra a política de “expropriação” que a facção esquerda do POSDR usava – assaltos armados a bancos e empresas para financiar o partido.

Em janeiro de 1912, após uma conferência em Praga, o POSDR racha oficialmente em dois novos partidos com o mesmo nome, um controlado pelos bolcheviques e outro pelos mencheviques. Trótski realiza uma conferência em Viena, em agosto, para tentar reunificar o partido, mas falha.

Ele passa a publicar em diversos jornais ucranianos e russos e, em setembro de 1912, é enviado pelo jornal Kievskaya Mysl para os Balcãs como correspondente de guerra, cobrindo o conflito entre sérvios e albaneses.

Em 1914, ele deixa definitivamente Viena com o estouro da I Guerra Mundial, indo para a Suíça, neutra na guerra.

Guerra, Zimmerwald e precedentes da Revolução de 1917

Com a guerra mundial, boa parte das direções sociais-democratas internacionais decidem apoiar o belicismo capitalista dos países imperialistas causando uma crise dentro do movimento operário. Na Rússia, enquanto Plekhanov era um dos apoiadores do ingresso do país na guerra, Trótski, Lênin e Martov foram contra.

Na Suíça, Leon Trótski começa a fazer agitação contra a guerra e publica o livro “A Guerra e a Internacional”, onde critica a social-democracia da II Internacional, principalmente na Alemanha, na França e na Inglaterra, pela participação e o apoio à guerra imperialista. Passa a ter uma aliança internacional dos marxistas contra a política genocida do imperialismo, onde destacam-se, além dos já mencionados, os membros do Partido Social-Democrata alemão Rosa Luxemburgo e Karl Liebknecht, que denunciaram a política de seu partido.

Enquanto correspondente de guerra pelo Kievskaya Mysl, Trótski vai à França em 1914, onde publica o jornal Nashe Slovo (“Nosso Mundo”) com Martov (que deixará o projeto logo em seguida) para denunciar a guerra.

Lênin, que também realizava a propaganda contra o conflito imperialista, passou a reivindicar o rompimento com a II Internacional e a formação de uma nova organização mundial dos trabalhadores.

Junto com Lênin, Grigori Zinoviev, Rosa Luxemburgo, Axelrod e outros socialistas contra a guerra, Trótski participa da Conferência de Zimmerwald, em setembro de 1915, onde discute-se um programa contra a guerra mundial.

Na conferência, enquanto Martov defendia permanecer na II Internacional, Lênin era partidário de rachar com a organização e fundar uma III Internacional.

“Os dias da conferência, de 5 a 8 de setembro, foram tempestuosos. A ala revolucionária, liderada por Lênin, e a ala pacifista, que contava com a maioria dos delegados, concordaram com dificuldade em um manifesto comum do qual eu havia preparado o esboço. O manifesto estava longe de dizer tudo o que deveria, mas, mesmo assim, foi um longo passo adiante. Lenin estava na extrema esquerda na conferência. Em muitas questões, ele estava em minoria mesmo dentro da ala esquerda de Zimmerwald, à qual eu não pertencia formalmente, embora estivesse perto disso em questões importantes. Em Zimmerwald, Lenin estava desenvolvendo o princípio da futura ação internacional. Em uma vila nas montanhas suíças, ele estava lançando a pedra fundamental da Internacional revolucionária”. (Minha Vida, 1930)

Assim, apesar de não levar até o fim a política de Lênin, Trótski e o dirigente bolchevique estavam numa frente única contra a guerra, junto com outros revolucionários. Por isso, ele escreve que “as diferenças essencialmente sem importância que ainda me separavam de Lenin em Zimmerwald diminuíram para nada durante os próximos meses”.

A aprovação do manifesto escrito por Trótski na conferência mostrou a grande reputação política que ele tinha entre o movimento operário internacional, principalmente no quesito da luta contra a guerra imperialista por meio de seu jornal Nashe Slovo.

“Os delegados franceses observaram em seu relatório o valor do Nashe Slovo em estabelecer um contato de ideias com o movimento internacional em outros países. Rakovsky assinalou que o Nashe Slovo desempenhou um papel importante na definição do desenvolvimento da posição internacional dos partidos social-democratas balcânicos. O partido italiano conheceu o Nashe Slovo, graças às muitas traduções de Balabanova. A imprensa alemã, incluindo os jornais do governo, citava o Nashe Slovo com mais frequência; assim como Renaudel tentou se apoiar em Liebknecht, Scheidemann não se opôs a nos listar como seus aliados”. (idem.)

Por suas atividades contra a guerra, Trótski foi deportado da França para a Espanha, em março de 1916; e da Espanha para os Estados Unidos, em dezembro do mesmo ano. Ele chegou ao país norte-americano em janeiro de 1917, onde passou a publicar nos jornais Novy Mir e Der Forverts, além de organizar a comunidade russa no país.

Campo de concentração e Revolução Russa de 1917

Trótski estava morando em Nova Iorque quando explodiu a Revolução de Fevereiro, em 1917, na Rússia. Os operários, que estavam morrendo diante da guerra e passando fome diante da crise causada por ela, se insurgiram contra o regime czarista e, com base na experiência de 1905, formaram novamente seus Sovietes. O Império é rapidamente derrubado pelos trabalhadores, mas diante da capitulação dos Mencheviques e dos Socialistas-Revolucionários não tomam o poder imediatamente, participando de um governo provisório junto à burguesia liberal, organizada no partido Cadete.

Diante dos acontecimentos revolucionários, em março de 1917, Trótski deixa Nova Iorque em março de 1917, mas seu barco é interceptado por autoridades canadenses em Halifax, onde a embarcação fica detida por um mês.

Trótski fica preso no Amherst Internment Camp, o maior campo de concentração do Canadá durante a I Guerra Mundial, onde estabelece relações com os trabalhadores e marinheiros, no que ele definiu como “uma reunião de massa contínua”, tamanha era a situação explosiva do mundo, com a guerra e a Revolução Russa.

Com a agitação fervorosa, Trótski foi proibido de realizar seus comícios pelas autoridades – levando mais de 500 operários a protestarem contra a ordem e assinarem uma petição contra a proibição.

Na Rússia, diante da pressão feita pelos trabalhadores no país, o ministro das Relações Exteriores, Pavel Miliukov, dirigente do Cadete, que era a favor de manter os russos na guerra imperialista, foi forçado a demandar a soltura de Trótski, que foi liberado em 29 de abril de 1917. Novamente, a popularidade do revolucionário como líder das massas proletárias ficou comprovada.

Tomada do poder

Ele chega à Rússia em maio de 1917, concordando com a política de Lênin expressa nas “Teses de Abril”, onde se exige, entre outras coisas, a saída imediata da Rússia da guerra e a luta do proletariado pelo poder político, contra o governo provisório formado pelos Socialistas-Revolucionários e Mencheviques junto à burguesia.

Trótski chegando em Petrogrado em 1917
Trótski chegando em Petrogrado em 1917

Ele foi eleito, em junho, no Primeiro Congresso dos Sovietes, para o Comité Executivo Central de Todas as Rússias, que centralizava, pela primeira vez na história, os Sovietes de todo o país.

Após a insurreição bolchevique em julho – quando Lênin decide dar um passo atrás por entender que o partido ainda não tinha maioria no país para tomar o poder – que foi seguida por uma brutal repressão do Governo Provisório, sob o comando do socialista-revolucionário Alexander Kerensky, Trótski é preso na Rússia.

Ele é solto, em seguida, após a classe operária, sob a liderança dos bolcheviques, derrotarem a tentativa de golpe contra-revolucionário do General Larv Kornilov e do alto-comando das Forças Armadas para paralisar a revolução para manter a Rússia na guerra e impedir a tomada do poder pelo proletariado.

Em consequência da vitória sobre o golpe militar, os bolcheviques ganharam o comando do Soviete de Petrogrado (São Petersburgo), o mais importante do país, e Trótski foi eleito seu presidente. Entre os dirigentes bolcheviques, ele, Lênin e Kollontai ficaram isolados ao defender a tomada imediata do poder pelos trabalhadores, contra a política de líderes importantes do partido, como Zinoviev e Kamenev.

O trabalho organizativo da tomada do poder ficou sob o controle de Trótski, enquanto Lênin orientava. A jornalista Louise Bryant, mulher de John Reed (autor de “10 dias que abalaram o mundo” e fundador do Partido Comunista dos EUA), em texto sobre personalidades da revolução, que ela e seu marido assistiram ao vivo, escreve que:

“Ele [Trótski] é sem dúvida o personagem mais dramático produzido durante toda a extensão da Revolução Russa e seu único grande organizador. Nenhum homem irá ofuscar sua eminência na história da revolução, exceto Lênin. Eles permanecerão as duas personalidades mais distintas. Eles são figuras complementares. Lenin representa o pensamento; Trotsky representa a ação. O gênio de Trótski poderia ter se esgotado em algum entusiasmo selvagem ou em alguma fúria consumidora, se não fosse pela influência refrescante de Lenin. Por outro lado, os planos de Lenin, não importam o quão cuidadosamente pensados, não poderiam ter se materializado sem um Exército de trabalhadores”. (Mirrors of Moscow)

O próprio Stalin, principal opositor de Trótski no futuro, em trecho de artigo que foi em seguida censurado, afirma que “todo o trabalho prático relacionado com a organização da insurreição foi feito sob a direção imediata do camarada Trótski, o presidente do Soviete de Petrogrado. Pode-se afirmar com certeza que o Partido está em dívida primária e principalmente com o camarada Trótski pela rápida passagem da guarnição para o lado do Soviete e pela maneira eficiente como o trabalho do Comitê Revolucionário Militar foi organizado”. [O trecho é de seu artigo A Revolução de Outubro, de 1917, que foi posteriormente retirado de suas Obras Completas].

Dito isto, fica claro que Trótski foi o principal responsável de organizar o levante proletário e de liderar o Comitê Revolucionário Militar, que reuniu as tropas das Forças Armadas, os operários e os camponeses pela derrubada do Governo Provisório, que ocorreu em 7 de novembro (25 de outubro, no calendário juliano, que ainda era usado na Rússia).

Em seguida, foi responsável por montar um gigantesco exército proletário, o Exército Vermelho, para barrar a tentativa contra-revolucionária da alta-cúpula das Forças Armadas. Ele também se alinhou com Lênin contra a política de outros membros do Comitê Central bolchevique (Zinoviev, Kamenev, Rykov, etc.) de compartilhar o poder com outros partidos socialistas, que haviam traído os trabalhadores durante o Governo Provisório.

Desta forma, Trótski havia se tornado a segunda pessoa mais importante do Partido Bolchevique e era mais popular que figuras importantes do partido, como Zinoviev, um dos mais antigos aliados de Lênin e exímio agitador das massas.

Governo Bolchevique

Após a tomada do poder, Trótski tornou-se Comissário do Povo para Relações Exteriores e foi responsável pelo Tratado de Brest-Litovsk, que deu fim à participação da Rússia na guerra contra a Alemanha. Essa política foi criticada pelo dirigente bolchevique Nikolai Bukharin, que queria levar uma guerra da Rússia pela implementação do socialismo em outros países da Europa.

A paz defendida por Trótski, porém, foi defendida por Lênin, que compreendia que manter as massas numa guerra, após o genocídio e a crise realizada pelo Império e pelo Governo Provisório, seria uma política equivocada que faria o povo abandonar o governo revolucionário.

Em seu livro “Lenin”, de 1925, publicado após a morte do dirigente bolchevique, Trótski destaca: “que não podíamos mais lutar estava perfeitamente claro para mim e que os destacamentos recém-formados da Guarda Vermelha e do Exército Vermelho eram muito pequenos e mal treinados para resistir aos alemães”.

Trótski e Kamenev em Brest-Litovsk
Trótski e Kamenev em Brest-Litovsk

Sobre o tratado de paz com os alemães, Trótski afirma que “iniciamos negociações de paz na esperança de despertar o partido operário da Alemanha e da Áustria-Hungria, bem como dos países da Entente. Por isso, fomos obrigados a atrasar o máximo possível as negociações para dar ao operário europeu tempo para compreender o fato central da própria revolução soviética e, em particular, sua política de paz”.

Enquanto Bukharin defendia manter as massas na guerra, Lênin queria aceitar os termos da Alemanha para evitar uma nova guerra, enquanto Trótski achava que assinar o tratado com um país imperialista seria desmoralizante, ao mesmo tempo em que defendia acabar com a guerra. Por isso, ele propunha adiar as reuniões com os alemães para dar tempo à classe operária europeia assimilar a Revolução Russa e se insurgir contra seus respectivos governos e contra a guerra promovida por eles.

Com as operações militares alemãs contra a Rússia em fevereiro de 1918, Trótski abriu mão da posição e se absteve em votação no Comitê Central, o que favoreceu a política de Lênin de assinar o acordo e tirar os russos da guerra. O tratado foi assinado em março e Trótski resignou de sua posição para favorecer o acordo, uma vez que ele era associado à política anterior, de adiar as negociações.

Guerra Civil

Trótski discursando num tanque de guerra
Trótski discursando num tanque de guerra

Com a ameaça apresentada pela Alemanha em fevereiro e a possibilidade das potências imperialistas saírem da guerra entre si e se unificarem contra a Rússia soviética, Trótski liderou o processo de formação e treinamento do Exército Vermelho. Ele foi apontado como Comissário do Povo para Assuntos do Exército e da Marinha e tornou o exército revolucionário numa força gigantesca e disciplinada para lutar contra o imperialismo.

Os governos imperialistas passaram a financiar milícias para lutar contra a União Soviética, que começou a ser invadida por diversas forças contra-revolucionárias. Assim, o governo soviético decide realizar uma gigantesca campanha de mobilização e expansão do Exército Vermelho – que em maio de 1918 tinha 300 mil integrantes e passou a ter 1 milhão em outubro do mesmo ano.

Trótski, Kamenev e Lenin
Trótski, Kamenev e Lenin

Com uma campanha reacionária dentro da Rússia, que obteve apoio da esquerda menchevique e socialista-revolucionária e que se materializou numa tentativa fracassada de assassinato de Lênin, os bolcheviques iniciaram uma gigantesca mobilização para deter as forças contra-revolucionárias.

Para fortalecer o exército, Trótski defende a utilização de oficiais das forças armadas czaristas para vencer a contra-revolução. A posição é defendida por Lênin, que escreveu em panfleto de 1919:

“Quando o camarada Trotsky me informou recentemente que o número de oficiais do antigo exército empregados por nosso Departamento de Guerra chega a várias dezenas de milhares, percebi concretamente onde estava o segredo de usar nosso inimigo, como obrigar aqueles que se opunham ao comunismo a construí-lo, como construir o comunismo com os tijolos que os capitalistas escolheram lançar contra nós! Não temos outros tijolos! E, portanto, devemos obrigar os especialistas burgueses, sob a direção do proletariado, a construir nosso edifício com esses tijolos. Isso é o que é difícil; mas esta é a promessa de vitória”. (Conquistas e Dificuldades do Governo Soviético, 1919)

Essa política passou a ser criticada por Stalin e Zinoviev, que passaram a atacar o comando de Trótski no Exército Vermelho. Não apenas na questão da utilização dos antigos oficiais militares, Zinoviev e Stalin também criticaram Trótski quando este instaurou o chamado Comunismo de Guerra, onde uma parte das provisões eram dadas aos militares para sustentá-los na Guerra Civil. Da mesma forma, Stalin e outros militantes criticavam a “dureza” com que Trótski tratava os comunistas dentro do Exército, fuzilando quem sabotava as operações e impondo uma rígida disciplina.

“Na questão militar, a oposição assumiu uma forma mais ou menos definida durante os primeiros meses de organização do Exército Vermelho. Suas ideias fundamentais encontraram expressão na defesa do método eleitoral e em protestos contra o alistamento de especialistas, a introdução da disciplina militar, a centralização do exército e assim por diante”. (Minha Vida, 1930)

“A oposição tentou encontrar alguma fórmula teórica geral para sua posição. Eles insistiram que um exército centralizado era característico de um estado capitalista; a revolução tinha que apagar não apenas a guerra posicional, mas também um exército centralizado. A própria essência da revolução era sua capacidade de se mover, fazer ataques rápidos e realizar manobras; sua força de combate foi incorporada em um pequeno destacamento independente composto de várias armas; não estava preso a uma base; em suas operações, contava totalmente com o apoio de uma população simpática; poderia surgir livremente na retaguarda do inimigo, etc. Em suma, as táticas de uma pequena guerra foram proclamadas as táticas da revolução. Tudo isso era muito abstrato e não passava de uma idealização de nossa fraqueza. A séria experiência da guerra civil logo desmentiu esses preconceitos. A superioridade da organização central e da estratégia sobre as improvisações locais, separatismo militar e federalismo, revelou-se muito cedo e muito claramente nas experiências da luta”. (idem.)

“Não é de se espantar que meu trabalho militar tenha criado tantos inimigos para mim. Não olhei para o lado, afastei com uma cotovelada aqueles que interferiam no sucesso militar, ou na pressa do trabalho pisoteado pelos desatentos e estava ocupado demais até para pedir desculpas. Algumas pessoas se lembram dessas coisas. Os insatisfeitos e aqueles cujos sentimentos haviam sido feridos encontraram o caminho de Stalin ou Zinoviev, pois esses dois também nutriram feridas. Cada revés na frente levou os descontentes a aumentar sua pressão sobre Lenin. Nos bastidores, essas maquinações já eram administradas por Stalin. Memorandos foram apresentados criticando nossa política militar, meu patrocínio aos “especialistas”, o tratamento duro dispensado aos comunistas e assim por diante. Os comandantes que foram obrigados a renunciar ou frustrados “marechais” vermelhos enviaram um relatório após o outro apontando a precariedade de nossa estratégia, a sabotagem pelo alto comando e muito mais”. (idem.)

Trótski discursando para o Exército Vermelho durante a Guerra Civil
Trótski discursando para o Exército Vermelho durante a Guerra Civil

Pós-guerra e Oposição de Esquerda

Em 1921, o Exército Vermelho sai vitorioso da guerra justamente diante da liderança de Trótski na expulsão das forças reacionárias do país. Ele, porém, voltou a ser atacado por Stalin e Zinoviev que se aproveitaram de divergências menores entre o ucraniano e Lênin sobre questões administrativas e secundárias – por exemplo, sobre a integração dos sindicatos ao Estado operário, defendida por Trótski.

Enquanto a saúde de Lênin se deteriorava, Stalin e Zinoviev aproveitavam para minar a direção política de Trótski dentro do partido e entre os operários. Ao acabar com a Rebelião de Kronstadt contra o governo soviético, o grupo de Stalin aproveitou para aprofundar a intensa campanha contra a “ditadura de Trótski”.

Lênin ausente das reuniões da direção devido aos seus sucessivos derrames, a divisão do partido tornou-se cada vez mais forte. Por um lado, Stalin, Zinoviev e Kamenev (troika), de outro Trótski e seus aliados.

A troika trabalhou com força para impedir que Trótski fosse o sucessor de Lênin, e para isso realizaram uma política de aparelhamento dos cargos dentro do partido e do Estado soviético, o que estava sendo facilitado pelo isolamento da Rússia na revolução socialista e a perda de vários membros da vanguarda proletária durante a Guerra Civil, que deixou o país destruído e com uma fraca classe operária.

Lênin, doente e afastado, buscava manter o partido unificado e não poupava críticas a ambos os lados. Porém, como fica claro em seu testamento, que os agentes do stalinismo censuraram após a morte do dirigente, denunciou fortemente o aparelhamento do partido por Stalin e sugeriu que ele fosse retirado do cargo de Secretário-Geral.

No XII Congresso do partido, Lênin acabava de morrer, e Trótski aparecia como principal dirigente do partido – fato que foi confirmado pelos intensos aplausos e apoios que ele recebeu ao discursar no evento. Assim sendo, a troika iniciou uma intensa campanha de calúnia com Trótski e seus apoiadores, censurando-os e explorando, de forma oportunista e distorcida, as divergências entre ele e Lênin ao longo da vida. Junto a isso, buscaram retirar todos os apoiadores de Trótski dos cargos importantes do partido e do Estado.

Trótski iniciou uma campanha por mais democracia dentro do partido e fundou a Oposição de Esquerda, em janeiro de 1924, denunciando a política de aparelhamento feita por Stalin. Enquanto ele obtinha apoio nas grandes cidades e nos setores mais avançados da classe operária e do Exército Vermelho, a troika se apoiava na confusão semeada e nos lugares mais atrasados do país.

Do ponto de vista da revolução mundial, o Partido Comunista da União Soviética (PCUS), que era a principal influência da III Internacional fundada por Lênin, não conseguiu orientar o Partido Comunista Alemão (PCA) a tomar o poder em 1923 quando havia apoio das massas. Isso levou à derrota da Revolução Alemã – motivo pelo qual, segundo Trótski, a URSS ficou isolada no âmbito da revolução, favorecendo um período contra-revolucionário de consolidação da burocracia stalinista.

Em 1924, quando a economia mundial já estava se estabilizando, o stalinismo promoveu uma política aventureira de insurreição na Alemanha, levando a uma brutal repressão do movimento operário e a uma derrota definitiva do processo revolucionário, o que já havia sido anunciado por Trótski, que passou a definir a política stalinista como um “zigue-zague” constante.

A luta política também se deu no sentido da economia russa. A União Soviética ainda estava realizando a Nova Política Econômica (NEP), uma abertura da economia capitalista de pequeno porte, defendida por Lênin para tirar o país da crise deixada pela Guerra Civil. Em 1924, porém, a Oposição de Esquerda defendia já uma política de industrialização do país para acabar com a disparidade econômica entre o campo, que estava enriquecendo e gerando uma forte classe capitalista proprietária, e a cidade, empobrecida. Já a troika, através de Bukharin, defendia a política de enriquecimento dos camponeses, pela construção do “Socialismo em um só país”, uma corrupção do marxismo.

Trótski denunciou essa política. Mostrou que ela favorecia apenas a burocracia e não a classe operária internacional, e que isso criava uma classe capitalista dentro da URSS que iria se voltar contra o Estado operário – o que se confirmou nos anos seguintes.

Em janeiro de 1925, a pressão e a perseguição da burocracia sobre ele era tão grande que o dirigente da revolução foi obrigado a renunciar ao cargo de Comissário do Povo para Assuntos do Exército e da Marinha, enquanto Zinoviev e Kamenev propunham sua expulsão do partido.

Oposição Unificada e Revolução Permanente

Diante da burocratização cada vez mais focada em Stalin, que aparelhou completamente o partido e o Estado, ocorre um racha na troika e Zinoviev e Kamenev saem do grupo, formando em seguida a Oposição Unificada junto com o grupo de Trótski.

Zinoviev afirmou, em meados da década de 1920, ter cometido dois grandes erros em sua vida: não ter defendido a tomada do poder em 1917 e ter ajudado a fortalecer a burocracia stalinista. Segundo ele, o maior de todos os erros foi o segundo, pois no primeiro havia Lênin para corrigi-lo.

A Oposição criticou duramente a política de Stalin em relação à Revolução Chinesa. A burocracia do PCUS defendia uma aliança do Partido Comuinsta Chinês (PCC) com o partido reacionário da burguesia chinesa, o Kuomintang, que traiu a revolução e assassinou seus membros. O stalinismo afirmava não haver condições para uma revolução proletária na China e, por isso, defendia uma revolução democrático-burguesa e uma aliança com o Kuomintang.

Conforme disse Trótski, foi uma repetição de teoria da “revolução por etapas”, defendida pelos mencheviques na Rússia. Por isso, Trótski publicou uma de suas obras mais importantes, “A Revolução Permanente”, onde ele critica não somente a política do Socialismo em um só país – que ele mostrou inviável diante da internacionalização da economia capitalista -, como também a política menchevique de Stalin no controle de III Internacional, que levou à derrota da revolução na China e em outros países.

Assim como ele e Lênin defenderam em 1905, a classe operária não deveria se aliar com a burguesia para atingir as conquistas democráticas, mas deveria lutar de forma independente para conquistar o poder e resolver os problemas por meio da ditadura do proletariado.

A oposição em torno da questão da China foi ferrenha e fez com que Stalin aumentasse a perseguição aos oponentes internos e externos. Na questão internacional, Trótski também criticou a política do stalinismo na Inglaterra, em 1926, que diante de uma greve geral de características revolucionárias no país, a burocracia tratou de conter o movimento operário inglês ao ficar à reboque dos sindicalistas social-democratas no Comitê Anglo-Russo, que traíram a greve e acabaram com ela.

Perseguição e exílio

A Oposição denunciava a política de Stalin, que junto com Bukharin, havia permitido o crescimento de uma oposição interna à direita pelo surgimento de uma classe capitalista entre os proprietários rurais, cada vez mais ricos e que conseguiam apoio de setores mais atrasados, mais numerosos, da burocracia; estimulava grandes derrotas internacionais para a classe operária; tornava cada vez menos constantes os congressos e conferências do PCUS e da III Internacional em um processo para retirar as bases do partido e das seções internacionais das decisões dos respectivos organismos; entre outras coisas.

Diante da situação, a camarilha stalinista expulsou Trótski e Zinoviev do Comitê Central do PCUS, em outubro de 1927. Quando a Oposição realizou manifestações em comemoração aos 10 anos da tomada do poder pelos bolcheviques, os atos foram brutalmente reprimidos e os dois dirigentes oponentes a Stalin foram expulsos do partido, em 12 de novembro.

No XV Congresso do partido, em dezembro, a burocracia realiza um expurgo para expulsar todos os membros da oposição do partido. Este processo ocorre a nível internacional, com os trotskistas de outros países sendo expulsos dos partidos filiados à III Internacional, na maioria dos casos com um gigantesco processo de calúnias, difamações, censura e perseguições.

Quando o partido tornou a política da Oposição incompatível com seu programa, o grupo de Kamenev e Zinoviev capitulou e rompeu aliança com o trotskismo, que buscou manter sua posição.

O último discurso de Trótski na URSS foi no funeral de seu velho amigo Adolf Joffe, em novembro de 1927.

A burocracia do Estado soviético iniciou uma intensa perseguição aos trotskistas e Trótski foi exilado em Alma Ata, no Cazaquistão, em 31 de janeiro de 1928. Em fevereiro de 1929, ele é definitivamente expulso da URSS e vai para a Turquia, com sua mulher, Natália, e seu filho mais velho, Lev.

Trótski e Natália com o filho Lev Sedov, em Alma Ata (1928)
Trótski e Natália com o filho Lev Sedov, em Alma Ata (1928)

O isolamento de Trótski e sua expulsão da URSS foi o ponto fundamental da perseguição do stalinismo aos opositores dentro do país. A burocracia obrigou a oposição a se submeter, caso contrário seria mandada para prisão, como ocorreu com militantes bolcheviques históricos, como Karl Radek e Christian Rakovski. Este último, após ser deportado, escreveu em 1930, junto com Vladimir Kosior, Nikolai Muralov e Varia Kasparova, uma carta ao Comitê Central do partido, na qual afirmou que:

“Diante de nossos olhos, segue formando-se uma grande classe de governantes que tem seus próprios interesses internos e que cresce mediante uma cooptação bem calculada, através de promoções burocráticas e de um sistema eleitoral fictício. O elemento aglutinador dessa classe original é uma forma singular de propriedade privada: o poder estatal.”

Em 1932, Rakovski tentou fugir da URSS, mas fracassou e foi exilado em Yakutia, o que fez Trótski realizar uma campanha internacional pela sua soltura. Um a um, os trotskistas foram sendo presos e executados, e obrigados a admitirem que Trótski era “um agente do nazismo” contra a União Soviética, além de outras barbaridades.

Não só os trotskistas foram obrigados a capitular diante da ditadura stalinista, como também o grupo de Kamenev e Zinoviev. Esse clima prevaleceu no país no final da década de 1920 e na década de 1930, e a perseguição pôde ser vista nos partidos comunistas mundo afora.

Na Turquia, Trótski e sua família viveram dois meses no Consulado da União Soviética em Constantinopla. Em seguida, foram movidos pelas autoridades para Prinkipo, numa tentativa de isolar o dirigente revolucionário das grandes cidades. Ao mesmo tempo em que era vigiado pela polícia turca, ele também sofria com ameaças da extrema-direita. Por isso, para defendê-lo, seus apoiadores decidiram montar um esquema de segurança próprio.

Para fugir da situação, Trótski fez pedidos para ser aceito em diversos países, como Bélgica, Alemanha, França e Reino Unidos, mas todos recusaram, temendo a participação política revolucionária em seus países.

Enquanto isso, buscou reorganizar a oposição anti-stalinista na União Soviética e mundo afora, denunciando o caráter contra-revolucionário da burocracia. Voltou a se aproximar de Zinoviev e Kamenev em 1932 pela formação de um bloco de oposição, no qual seu filho Lev teve grande importância. Os dois antigos dirigentes capitularam novamente logo no início de 1933, assim como os outros membros do bloco dentro da URSS.

Em julho de 1933, o primeiro-ministro da França, Édouard Daladier, permite que Trótski se refugie na França, na condição de não pisar em Paris, principal centro da política francesa. No país, foi totalmente vigiado pela polícia.

Vale destacar ainda que neste momento, na França, o crescimento da extrema-direita fascista era enorme e, mesmo no campo, Trótski era constantemente ameaçado pelos fascistas.

Logo após a revolta fascista de 1934, quando a extrema-direita francesa tentou invadir o Parlamento e forçou Daladier a renunciar, o governo anunciou a deportação de Trótski da França. Ele, porém, vivenciou o empecilho de nenhum país no mundo aceitar recebê-lo. A polícia francesa o enviou então para o vilarejo de Barbizon, onde as ameaças eram constantes.

Em maio de 1935, entretanto, após acordo firmado entre a URSS e a França, Trótski foi avisado de que deveria sair definitivamente do país, imediatamente. Com muita dificuldade, consegue ir para a Noruega, onde ficou hospedado na casa do pintor e político Konrad Knudsen, de junho de 1935 a setembro de 1936.

Oposição trotskista e Processos de Moscou

Em todo este período exilado, fora de seu país natal, apesar das extremas dificuldades, Trótski estava escrevendo importantes obras para denunciar o stalinismo e para orientar o movimento operário internacional. Assim, estava fortalecendo seus laços internacionais e formando tendências trotskistas nos principais países do mundo, a partir das rachas e expurgos nos partidos comunistas do final da década de 1920.

Todo lugar onde havia um partido comunista desenvolvido havia também um pequeno núcleo trotskista realizando agitação política. No Brasil, por exemplo, os trotskistas foram responsáveis pela expulsão dos integralistas (fascismo brasileiro) na Batalha da Praça da Sé, em 1934. Nos EUA, os trotskistas ganharam grande importância entre a classe operária local. Na Europa e na Ásia, a perseguição stalinista era maior e, por isso, houveram mais dificuldades, ainda mais com a ascensão do fascismo europeu, mas não eram menos importantes. A França, por exemplo, tinha um dos principais grupos trotskistas do mundo, o que foi fortalecido pela estadia do dirigente revolucionário no país.

Foi diante deste fato que o governo francês realizou uma campanha contra o trotskismo, acusando-o de estimular as tendências grevistas que apareceram em 1935 e 1936.

Em maio de 1936, por exemplo, a classe operária quase tomou poder após uma greve geral de características revolucionárias – não fosse a conciliação do stalinismo com a burguesia para conter o movimento.

Assim, em 1936, Trótski é expulso da Noruega, no momento em que ele denunciava ferrenhamente a política de Frente Popular promovida por Stalin e chamava a classe operária a realizar uma política independente para lutar contra o fascismo, sem se juntar à burguesia “democrática”. Com essa campanha contra as derrotas promovidas pelo stalinismo, Trótski ganhou ainda mais influência internacional, conseguindo se aliar e fundar organizações importantes pela Europa.

Antes de sair do país, entretanto, Trótski foi alvo de intensas campanha da extrema-direita. Em agosto de 1936, os fascistas saquearam a casa de Knudsen, quando o hóspede, sua mulher, Trótski e Natália estavam a passeio no mar. Os fascistas queimaram arquivos e livros do dirigente ucraniano, vandalizando seus pertences.

Em 14 de agosto, a burocracia stalinista começou uma grande campanha de perseguição política dentro do partido na URSS, acusando, sem fundamentos, Trótski e Zinoviev de estarem organizando um golpe no país. O caso dá início aos processos de Moscou, um dos mais absurdos julgamentos da história da humanidade.

Com medo da influência que Trótski ganhava mundo afora, Stalin decidiu partir para cima de todas as facções ainda existentes dentro do PCUS. Zinoviev e Kamenev foram os primeiros. Eles, que haviam capitulado diante do stalinismo e admitido que Trótski era um traidor, foram mesmo assim condenados e executados.

Os trotskistas – e os que eram assim chamados pela burocracia -, enfraquecidos por mais de uma década de perseguição e censura, e desmoralizados pela capitulação diante da burocracia, tiveram a mesma sorte. Radek e Piatakov, ambos ex-dirigentes do Comitê Central, foram executados. Em seguida, Rykov e Bukharin. De forma que, no período entre 1936 a 1940, todos os antigos dirigentes da Revolução Bolchevique que ainda não haviam morrido foram executados pelo Stalinismo.

Trótski será o último, não sem antes impor uma grande resistência. O dirigente da Revolução Russa e os trotskistas europeus e americanos denunciaram fortemente as arbitrariedades dos Processos de Moscou, em que os dirigentes revolucionários de 1917 eram acusados, sem fundamento, de estarem conspirando com o nazismo para derrubar o Estado soviético. Com torturas e brutalidades, a burocracia conseguiu “confirmações” sobre a conspiração e, em seguida, mandou executar os que “confessaram” a culpa.

Trótski realizou uma campanha internacional, exigindo um processo justo numa Comissão Independente para se defender das acusações que influenciavam o movimento operário mundial. Ele publicou seu livro “Os Processos de Moscou”, onde denuncia os absurdos cometidos pelo stalinismo.

Junta-se a isso a perseguição que ele passou a sofrer das autoridades norueguesas após o saque de suas coisas. A polícia ficava intimidando-o e interrogando-o de forma absurda, num processo desgastante e ditatorial.

O ministro da Justiça, Trygve Lie, definiu que Trótski e sua mulher fossem enviados a uma fazenda em Hurum, onde ficaram sob prisão domiciliar. Ele e Natália só haviam direito a sair da casa por 2 horas num dia e a casa era guardada por dezenas de policiais, suas atividades todas vigiadas e suas correspondências censuradas. Apenas podia receber visitas do líder do Partido Trabalhista Noruguês no Parlamento, Olav Scheflo, e de seus advogados. A partir de outubro, até mesmo as caminhadas foram proibidas.

Assim, Trótski não conseguia realizar sua campanha contra os Processos de Moscou.

“Quando hoje olho para trás, para esse período de internamento, devo dizer que nunca, em lugar nenhum, no curso de toda a minha vida – e vivi muitas coisas – fui perseguido com tanto cinismo miserável quanto fui pelo governo ‘socialista’ norueguês. Por quatro meses, esses ministros, cheios de hipocrisia democrática, agarraram-me com força para me impedir de protestar contra o maior crime que a história pode conhecer”. (Trotsky in Norway: Exile, 1935–1937)

México e assassinato

Em seguida, através da campanha de companheiros no México, como o pintor muralista Diego Rivera, o governo mexicano aceita receber Trótski. O dirigente revolucionário chega ao país em janeiro de 1937, através do petroleiro noruguês Ruth. O presidente do México, Lázaro Cárdenas, recebeu Trótski pessoalmente em sua chegada ao país e organizou um trem para levá-lo da Cidade do México até Tampico.

Trótski e Natália chegam ao México, recebidos por Frida Kahlo
Trótski e Natália chegam ao México, recebidos por Frida Kahlo

Em seguida, até abril de 1939, Trótski e Natália viveram em Coyoacán com os pintores Diego Rivera e Frida Kahlo, onde se reuniam com militantes revolucionários. Após abril de 1939, ele passa a morar numa casa há alguns quarteirões dos artistas.

Antes disso, em 1938, ele e seus colaboradores decidem fundar a IV Internacional, diante das derrotas estimuladas pela III Internacional stalinista a nível mundial – permissão da ascensão do nazismo na Alemanha com a política do “social-fascismo”; formação de frente populares com a burguesia para conter o movimento operário; e assim por diante.

Como programa da organização, Trótski escreve o “Programa de Transição”, um manifesto socialista e de reivindicações para os dias atuais, abordando temas importantes como o surgimento do fascismo e a burocratização do movimento operário internacional.

No mesmo ano, seu filho mais velho, Lev, é assassinado em Paris por agentes stalinistas, enquanto boa parte de sua família já havia morrido por conta da perseguição da burocracia.

Em 1939, Trótski aceita ir aos EUA participar do Comitê de Atividades Antiamericanas organizado pela direita norte-americana para atacar os partidos comunistas. O intuito de Trótski, entretanto, não era dar força para a direita, mas denunciar as perseguições que haviam sido feitas contra ele e seus apoiadores, e assim popularizá-las mundialmente. Ao tomar conhecimento de sua intenção, seu convite foi suspenso.

Em março de 1939, ocorreu uma tentativa de assassinato fracassada contra ele, que já sofria com problemas de saúde. Em fevereiro de 1940, escreveu seu testamento denunciando a política stalinista, o imperialismo e destacando sua intensa luta e crença no socialismo.

“Morro revolucionário proletário, marxista, partidário do materialismo dialético e, por consequência, ateu irredutível. Minha fé no futuro comunista da humanidade não é menos ardente; em verdade, ela é hoje mais firme do que o foi nos dias de minha juventude”.

Em 24 de maio de 1940, Trótski sobrevive a uma invasão em sua vila por assassinos armados liderados pelo agente de espionagem stalinista Iosif Grigulevich e o pintor mexicano David Alfaro Siqueiros, do partido comunista mexicano. Seu neto, de 14 anos, Vsevolod Platonovich “Esteban” Volkov, levou um tiro no pé. Um jovem assistente e guarda-costas de Trotsky, Robert Sheldon Harte, desapareceu com os agressores e mais tarde foi encontrado morto, o que aponta que ele tenha sido cúmplice e concedeu acesso aos criminosos à vila.

Em 20 de agosto de 1940, enquanto estudava, Trótski foi assassinado por um de seus guarda-costas, Ramón Mercader, com um golpe de picareta na cabeça.

“Coloquei minha capa de chuva sobre a mesa de forma a poder tirar a picareta que estava no bolso. Decidi não perder a oportunidade maravilhosa que se apresentou. No momento em que Trótski começou a ler o artigo, ele me deu minha chance; tirei a picareta da capa de chuva, agarrei-o na mão e, com os olhos fechados, dei-lhe um golpe terrível na cabeça”, conta o assassino.

Durante seu exílio, de 1927 a 1940, Trótski escreveu importantes obras para o marxismo, como “História da Revolução Russa (1930)”, onde explica de forma científica e detalhada a formação econômica do país e o movimento que levou à Revolução de 1917 e à sua contra-revolução pela burocracia stalinista. Uma das maiores obras-primas da literatura mundial.

Em “Revolução Traída” e “Revolução Desfigurada”, ele conta a história da degeneração da revolução pela burocracia até meados da década de 1930; “Aonde vai a França?” e seus textos sobre fascismo mostram a maneira mais eficiente de se combater a extrema-direita e explica o fascismo do ponto de vista marxista, isto é, da luta de classes; em “Minha Vida”, ele conta sua trajetória no movimento operário.

Esses são alguns dos textos fundamentais, além dos já mencionados, escritos por Trótski em sua vasta contribuição para o movimento operário mundial, que o coloca próximo a pessoas como Karl Marx, Engels e Lênin.

Leon Trótski (INCOMPLETO)
Leon Trótski, dirigente revolucionário da Revolução Russa
País de Nascimento

Ucrânia (Império Russo)

Nascimento e Morte

7/11/1879 – 21/8/1940

Família

Pai de Lev Sedov, militante trotskista russo, que teve um papel importante na organização da oposição dentro da URSS

Casado com Natália Sedova, antiga militante comunista nos primórdios do POSDR

Resumo

Dirigente revolucionário que organizou a tomada do poder na Revolução Russa, liderou o Exército Vermelho na Guerra Civil Russa e fundou a oposição ao stalinismo