Lev Kamenev

Lev Borisovich Rozenfeld nasceu em Moscou, filho de um mecânico que se tornou engenheiro das ferrovias, de origem judia. Frequentou a Universidade de Moscou. Aderiu ao Partido Operário Social-Democrata Russo em 1901. Foi preso em 1902, tendo de abandonar a universidade. Condenado ao exílio, fugiu e emigrou para Londres, onde conheceu Vladimir Lenin e diversos outros revolucionários, como Geroge Plekhanov e Leon Trótski. Casa com a irmã deste último, Olga Bronstein. Adotou o nome Kamenev. 

Ajudou a organizar o Iskra, passou por Paris, atuou em São Petersburgo, Moscou e Tiflis. Nesta última cidade, fortalece a organização bolchevique e conhece Josef Stalin buscando trazê-lo para a fração bolchevique do partido. Após participar do III Congresso do partido em Londres, retornou à Rússia para lutar na Revolução de 1905. Se tornou um importante organizador e propagandista bolchevique. No V Congresso, em 1907, foi eleito para o Comitê Central do POSDR e para a direção bolchevique. Neste mesmo ano foi preso novamente.

Braço direito de Lenin

É solto em 1908 e emigrou para se encontrar com Lenin e editar a revista Proletariy. Após o rompimento de Lenin com o velho bolchevique e amigo Alexander Bogdanov, ele e Grigori Zinoviev se tornaram os principais parceiros políticos do dirigente bolchevique, ajudando-o a levar adiante a luta contra Bogdanov e os Otzovistas, que defendiam que o partido não deveria ter nenhuma participação política nas instituições legais, como a Duma por exemplo.

Apesar de Lenin ser contra, em 1910, a maioria dos bolcheviques buscaram reunificar o partido com Bogdanov e os mencheviques, e Kamenev e Zinoviev foram representantes em conferência de Paris, e tornaram o Pravda, editado por Trótski e já extremamente popular entre os trabalhadores, no órgão oficial do POSDR, com diversas frações no conselho editorial. Kamenev se tornou o bolchevique dentro do conselho do Pravda, com sede em Viena (Áustria) e trabalhou com Trótski no jornal até resignar em agosto de 1910, marcando a falha na tentativa de unificação.

Depois disso, Kamenev continuou trabalhando no Proletariy e ensinou na escola bolchevique em Longjumeau (França), próximo de Paris, para se opor à Escola do Partido levada adiante por Bogdanov.

Em 1912, na Conferência de Praga, ele e Zinoviev se juntam a Lenin na luta para oficializar o racha dentro do POSDR entre bolchevique, mencheviques e outras frações.

Revolução Russa – divergências com Lenin

Após a falência do Pravda liderado por Trótski, os bolcheviques fundaram um jornal do mesmo nome e em janeiro de 1914, Kamenev foi enviado à Rússia para dirigir o jornal. Da mesma forma, foi dirigente político da facção bolchevique na Duma. Foi preso em novembro e condenado. Em 1915, foi enviado ao exílio à Sibéria, onde ficou preso até 1917, quando estoura a Revolução de Fevereiro.

Ele vai para São Petersburgo (Petrogrado), onde dirige com Josef Stalin o Partido Bolchevique e o Pravda. Ele e Stalin declaram apoio ao Governo Provisório (formado por partidos de esquerda – mencheviques e socialistas-revolucionários – e a burguesia) e buscam uma reconciliação com os mencheviques – esta política já era defendida por Stalin, quando dirigiu a política da fração na Duma e o Pravda, após grande parte do Comitê Central bolchevique estar presa durante a 1ª Guerra Mundial, inclusive Kamenev.

A política de Kamenev-Stalin gerou uma grande crise dentro do partido, que só foi resolvida com a volta de Lenin, um mês depois, do exílio à Rússia. Em abril, Lenin critica a política dos dois e elabora a “Teses de Abril”, onde coloca-se contra o governo provisório e pauta diversas reivindicações, como a saída imediata do império da Guerra Mundial. Kamenev continua na direção do Pravda, mas Stalin é substituído por Trótski, que entrou no Partido Bolchevique durante a Revolução.

Após as jornadas de julho, os generais russos, liderados por Lavr Kornilov, tentam dar um golpe militar, mas são derrotados pela mobilização bolchevique. O partido se tornou o mais influente da Rússia, controlando os mais importantes sovietes pelo país. Com isso, o partido discute a insurreição, um plano para tomada do poder. Em outubro de 1917, Kamenev e Zinoviev se opuseram a Lenin e a Trótski sobre a questão da tomada do poder pela classe operária.

Eles publicaram uma carta aberta contra a decisão do partido de tomar o poder, sendo eles os dois únicos membros do Comitê Central a votarem contra a tomada do poder. Ele e Zinoviev renunciaram do Comitê Central do partido- Stalin, nesta situação, votou contra a demissão. Eles ficaram fora da direção apenas brevemente e, após discussões com Lenin, apoiaram a tomada do poder pelo Comitê Militar Revolucionário, dirigido por Trótski.

No Segundo Congresso de Todos os Sovietes da Rússia, Lev Kamenev foi eleito presidente do Comitê Executivo, que após a tomada do poder e a derrubada do Governo Provisório, ganhou a importância de “presidente” da Rússia soviética. 

Pouco após a Revolução de Outubro, os partidos de esquerda que eram do Governo Provisório iniciaram um processo de sabotagem ao poder bolchevique. Pressionado, Kamenev e outros dirigentes bolcheviques, Zinoviev, Stalin, Alexei Rykov, Vladimir Milyutin e Victor Nogin, defendem um governo de conciliação com estes partidos para tentar apoio ao governo, mas Lenin e Trótski se colocam contra afirmando que haviam se tornado organizações contra-revolucionárias.

Contra isso, Kamenev, Zinoviev, Rykov, Milyutin e Nogin renunciam ao Comitê Central. Kamenev renuncia de seu posto de presidente do Comitê Executivo dos Sovietes, sendo substituído por Yakov Sverdlov. Eles foram chamados de desertores por Lenin:

“Os camaradas que renunciaram agiram como desertores, pois não só renunciaram aos cargos que lhes foram confiados, mas violaram a decisão direta do Comitê Central de nosso Partido que os obrigavam a adiar sua renúncia pelo menos até que fosse tomada uma decisão por Petrogrado e por organizações do Partido de Moscou. Condenamos veementemente essa deserção. Estamos profundamente convencidos de que todos os trabalhadores, soldados e camponeses com consciência de classe que pertencem ou simpatizam com nosso Partido condenarão com igual severidade as ações dos desertores”. (Lenin – Carta para o Comitê Central publicado no Pravda nº 182, em 6 de novembro de 1917)

“Vocês devem se lembrar, camaradas, que dois dos desertores, Kamenev e Zinoviev, agiam como desertores e canalhas mesmo antes do levante de Petrogrado; pois eles não apenas votaram contra o levante na reunião decisiva do Comitê Central em 10 de outubro de 1917, mas, mesmo depois de a decisão ter sido tomada pelo Comitê Central, agitaram os trabalhadores do Partido contra o levante. É do conhecimento comum que jornais que temem ficar do lado dos trabalhadores e estão mais inclinados a ficar do lado da burguesia (por exemplo, Novaya Zhizn), levantaram naquela época, em comum com toda a imprensa burguesa, um clamor sobre o ‘desintegração’ do nosso Partido, sobre ‘colapso da revolta’ e assim por diante. Os acontecimentos, no entanto, rapidamente refutaram as mentiras e calúnias de alguns e as dúvidas, vacilações e covardias de outros: A ‘tempestade’ que eles tentaram criar sobre os esforços de Kamenev e Zinoviev para impedir o levante de Petrogrado provou ser uma tempestade em copo d’água, enquanto o grande entusiasmo do povo, o grande heroísmo de milhões de trabalhadores, soldados e camponeses em Petrogrado, em Moscou, na frente, nas trincheiras e nas aldeias, empurrou os desertores para fora do caminho tão facilmente quanto um trem de ferro afasta lascas de madeira”. (idem.)

Em 1918, Kamenev se realinhou com os bolcheviques e tornou-se presidente do Soviete de Moscou e, logo depois, vice-presidente de Lenin no Conselho de Comissários do Povo (governo) e do Conselho de Trabalho e Defesa. Em março de 1919, Kamenev voltou ao Comitê Central e foi eleito membro titular do Politburo.

Divergências com Trótski durante a Guerra Civil e formação da Troika

Durante a Guerra Civil, Kamenev, Zinoviev e Stalin se juntaram contra a política militar levada adiante por Trótski: eles foram contra o Comunismo de Guerra, que pegava uma parte dos suprimentos dos camponeses para sustentar o Exército Vermelho; contra a política de centralização disciplinada dentro do Exército; e a inclusão de antigos oficiais militares dentro do Exército.

Enquanto a saúde de Lênin se deteriorava, eles aproveitavam para minar a direção política de Trótski dentro do partido e entre os operários. Ao acabar com a Rebelião de Kronstadt contra o governo soviético, o grupo aproveitou para aprofundar a intensa campanha contra a “ditadura de Trótski”.

Lênin ausente das reuniões da direção devido aos seus sucessivos derrames, a divisão do partido tornou-se cada vez mais forte. Por um lado, Stalin, Zinoviev e Kamenev (troika), de outro Trótski e seus aliados.

Com a morte de Lenin, a Troika trabalhou com força para impedir que Trótski fosse o sucessor. Para isso, foi central o papel de Stalin, secretário-geral do partido, que estava fortalecendo uma política de aparelhamento dos cargos dentro do partido e do Estado soviético. Kamenev e Zinoviev ajudaram Stalin no fortalecimento da burocracia ao se aproveitarem de antigas polêmicas entre Trótski e Lenin (e até de algumas mais recentes, como a militarização do trabalho e o ingresso dos sindicatos no Estado soviético) para tentar minar a liderança dentro do partido.

A ascensão da burocracia e o isolamento de Trótski foram facilitados pelo isolamento da Rússia na revolução socialista e a perda de vários membros da vanguarda proletária durante a Guerra Civil, que deixou o país destruído e com uma fraca classe operária.

A Troika conseguiu estabelecer um esquema para controlar a maioria dos delegados no XIII Congresso do partido e isolar Trótski e a recém formada Oposição de Esquerda dos cargos de direção no partido e no Estado. Na polêmica, em 1924, Trótski estava doente e ficou dificultado de responder às críticas – a dificuldade também surgiu diante da imposição da censura com o controle da burocracia sobre a polícia política (Tcheka, GPU). Trótski, em 1925, perdeu sua influência no meio militar e seus cargos de Comissário do Povo de Assuntos do Exército e Navais e presidente Comitê Militar Revolucionário.

Zinoviev e Kamenev pediram a expulsão de Trótski do partido, mas isso negado por Stalin, que buscava aparecer como conciliador.

Nova Oposição e Oposição Unificada

A política de Kamenev e Zinoviev, que mirou atacar Trótski, favoreceu a ascensão de burocratas totalmente alinhados com Stalin, que foi ganhando poder e acabou fragilizando o próprio grupo ligado a Kamenev-Zinoviev. No XIV Congresso, o grupo tinha a minoria de deputados e não conseguiram aprovar a resolução correta de que o socialismo só poderia ser atingido de forma internacional.

Contra isso, Stalin se aliou à ala direita do partido, Rykov e Bukharin, em torno da teoria do “Socialismo em Só País”. A Troika rompeu e Kamenev e Zinoviev fundaram a Nova Oposição, com Nadezhda Krupskaia (mulher de Lenin) e Grigori Sokolnikov (Comissário do Povo das Finanças) e outros militantes. Kamenev perdeu seu cargo no Politburo, passando a ser membro não-votante.

Em 1926, a Nova Oposição se juntou com a Oposição de Esquerda, de Trótski, formando a Oposição Unificada, que criticou ferrenhamente a política do “Socialismo em um Só País”, que estava condicionando o movimento operário internacional aos interesses da burocracia stalinista. Na XV Conferência do partido, Kamenev perdeu totalmente seu lugar no Politburo.

Nos anos de 1926 e 1927, a Oposição Unificada liderou uma campanha de denúncias contra a política de enriquecimento dos camponeses, que estavam se tornando uma classe capitalista dentro do Estado sovíetico; e as sucessivas derrotas promovidas pelo stalinismo em nível mundial, como na Greve Geral de 1926, na Inglaterra, e na Revolução Chinesa, com Stalin subordinando o Partido Comunista Chinês ao partido da burguesia, Kuomintang, que traiu a Revolução.

Kamenev foi expulso do Comitê Central, e os principais dirigentes, como Trótski e Zinoviev, foram expulsos do partido, numa campanha de expulsão dos elementos de oposição nos partidos comunistas do mundo inteiro. Sem os dois dirigentes, Kamenev foi o principal líder da Oposição no XV Congresso do PCUS. Em seguida, ele e os membros restantes da Oposição foram expulsos do partido, pavimentando o caminho para expulsões em massa em 1928.

Com a perseguição stalinista aos setores da oposição (até mesmo de seus setores moderados), que levou Trótski a uma vida de exílio fora da URSS, muitos dos militantes, inclusive os trotskistas, capitularam diante do stalinismo, “admitindo” que Trótski e outros eram agentes da contra-revolução. Kamenev foi aceito novamente no partido em 1928.

Expurgos stalinistas e morte

Apesar de não terem mais cargos no Comitê Central do partido, Zinoviev, Kamenev e seus principais apoiadores passaram a assumir cargos médios dentro do aparelho estatal e partidário, mantendo-se inativos de fato até 1932. Neste ano, tiveram relações com membros da oposição de Ryutin, e isso foi usado por Stalin para expulsá-los do partido. Assim, buscaram se juntar ao setores da oposição trotskista ainda remanescentes, e que haviam capitulado na época da expulsão de Trótski do país e outros setores da oposição. Esse movimento deu um novo fôlego para a oposição à burocracia.

Esse bloco, porém, entrou em crise novamente em 1933, após Kamenev e Zinoviev capitularem novamente ao stalinismo. No XVII Congresso, 1934, os dois foram forçados a realizarem discursos admitindo seus erros e se autoflagelarem publicamente.

O assassinato de Sergei Kirov, um dos políticos mais populares no partido, em 1934, foi pretexto para a burocracia stalinista reforçar sua política de perseguição massiva aos antigos dirigentes bolcheviques. Kamenev e Zinoviev foram novamente expulsos do partido e presos, assim como diversos militantes bolcheviques.

Kamenev e os outros foram obrigados a “assumir” cumplicidade no assassinato de Kirov, em meio a torturas. Zinoviev foi condenado a 10 anos de prisão, enquanto Kamenev a 10. Em agosto de 1936, Kamenev, Zinoviev e mais 14 militantes (como Ivan Bakaiev e Ivan Smirnov) foram julgados no “processo dos 16”, que deu início aos Processos de Moscou – em que Stalin fazia antigos militantes confessaram fazer parte de organizações terroristas, contra-revolucionárias, fascistas, etc. para justificar um expurgo massivo dos quadros do partido (mesmo os que estavam relativamente aliados com ele). Kamenev e Zinoviev foram condenados em processos farsescos e fuzilados.

Lev Kamenev
Lev Kamenev, velho bolchevique
País de Nascimento

Império Russo

Nascimento e Morte

18/7/1883 – 25/8/1936

Família

Casado com Olga Bronstein (irmã de Trótski)

Resumo

Velho bolchevique. Durante um tempo, braço direito de Lenin. Aliado de Stalin contra Trótski e depois líder da Oposição Unificada. Assassinado pela burocracia no Primeiro Processo de Moscou.