Padre Feijó

Diogo Antônio Feijó, também conhecido como Padre Feijó, foi um intelectual, estadista e sacerdote brasileiro que governou o Brasil durante a Regência do período imperial.

Viveu uma infância conturbada, rejeitado pelos pais por ser bastardo e sendo criado por um reverendo e sua irmã – Fernando Lopes de Camargo e Maria Gertrudes de Camargo, padrinho e madrinha de batismo, respectivamente.

Logo cedo se relacionou com a Igreja Católica, sendo educado por um padre em Santana de Parnaíba (SP). Viveu também em Guaratinguetá (SP). Foi ordenado presbítero e seguiu a carreira religiosa. Também se formou no curso de Filosofia em São Paulo. Em 1809, tornou-se escrivão juramentado da Câmara Eclesiástica em São Paulo, mas depois de algum tempo mudou-se para São Carlos (SP), onde vivia de sua horta e possuía doze escravos, herdados com a morte de sua “avó”, Marta de Camargo Lima.

Enquanto esteve na horta, dedicou-se ao trabalho intelectual, compondo uma gramática latina e um compêndio de retórica, além de se dedicar a rezar missas. No recenseamento de 1813, é citado como senhor de engenho, com 13 escravos, produzindo açúcar e aguardente, além de milho, feijão e arroz para os gastos da casa.

Aos 34 anos, em 1818, foi para Itu (SP), onde obteve autorização para abrir uma aula de Filosofia Racional e Moral, na qual defendia suas teses liberais – comuns em vários padres da época (neste período que antecede a revolução da Independência de 1822). Defensor da Revolução Liberal do Porto de 1820, em Portugal, quando Dom João VI jurou a Constituição de 1821, Feijó mobilizou em Itu, quando da eleição dos membros da Junta Provincial, um movimento intimando o Ouvidor a deferir ao colégio eleitoral o juramento da futura constituição portuguesa.

Foi secretário da Junta Eleitoral de Itu, iniciando sua carreira política, partindo para São Paulo para tomar parte da Junta Eleitoral da Província de São Paulo, instalada em 6 de agosto de 1821, diante da revolução portuguesa.

Cortes

A Junta paulista elegeu Feijó como um dos seis deputados às Cortes Gerais e Extraordinárias (Parlamento) de Lisboa. Liberal moderado, era crítico do governo dos Andradas (José Bonifácio, Martim Francisco e Antônio Carlos), que apoiaram os militares revoltosos de Santos, em 1821, liderados por Francisco José das Chagas e Joaquim José Cotindiba – que buscavam melhores salários para oficiais e igualdade de direitos entre militares brasileiros e portugueses.

Feijó em pintura de Oscar Pereira da Silva

Nas Cortes de Lisboa, era defensor de, apesar da autonomia para o Brasil, manter a união com o Reino de Portugal, contrário à independência e, ainda mais, à república (que já era apoiada pela ala esquerda dos liberais), defendendo a “integridade e indissolubilidade do reino unido”. Mesmo assim, defendeu um plano de desenvolvimento econômico para o Brasil, mas as Cortes não permitiram que fosse exposto.

Em Portugal, ficou desiludido com a Revolução Liberal de 1820, destacando que suas causas “não permitiam que à forma liberal de que ela se revestiu pudesse corresponder coerentemente um fundo liberal, abrangendo também o Brasil e suas necessidades mais prementes” – visto que o Brasil sofria com uma crise econômica ignorada pelas instituições portuguesas.

Entrou em oposição aos constitucionalistas portugueses, que queriam manter o Brasil como franquia ultramarina de Portugal, uma província. Feijó queria uma unidade em pé de igualdade entre Portugal e Brasil, elevado à condição de Reino em 1815 por Dom João VI. As divergências políticas se acentuaram quando ocorreu o Dia do Fico, quando Dom Pedro IV (depois Pedro I do Brasil) decidiu se opor às Cortes portuguesas ficando no Brasil, iniciando o processo de independência.

Feijó teve de enfrentar os deputados portugueses e sua posição inicial de unidade dos reinos já não era mais possível, visto que no Brasil já era inevitável que se proclamasse a independência. Junto com outros deputados, como Fernandes Pinheiro, Antônio Carlos de Andrada, Silva Bueno e Costa Aguiar, não assinou a Constituição portuguesa em 14 de setembro, argumentando que ela era contraditória com os interesses brasileiros. Manteve-se firme nesta posição mesmo quando Fernandes Pinheiro capitulou e assinou. Ao lado de Feijó ainda estavam Vergueiro, Cipriano Barata, Muniz Tavares e outros deputados brasileiros – sendo Antônio Carlos e Vergueiro os principais líderes desse grupo.

Diante do agravamento da situação, muitos desses deputados fugiram para o Brasil, como clandestinos num paquete inglês, em 5 de outubro. Chegou ao Brasil quando a independência já havia sido proclamada e a oposição portuguesa derrotada por José Bonifácio e Dom Pedro I.

Deputado no Império

Opositor do radicalismo, defendia um governo monárquico representativo, o que fez com que fosse espionado por agentes de José Bonifácio. Em 12 de novembro de 1823, a Assembleia Constituinte foi dissolvida e os Andradas entraram em conflito com Dom Pedro, Feijó participou das discussões da nova Constituição, mas aceitou o projeto que foi outorgado pelo imperador. Apesar de desencantado, não participou dos movimentos revolucionários, como a Confederação do Equador.

Feijó, por Miguelzinho Dutra.

Apesar de não ser eleito na primeira Assembleia Legislativa, quando Fernandes Pinheiro saiu da Câmara e foi para o Senado, assumiu o cargo vacante de deputado, sendo nomeado pelo parlamentar eleito. Foi deputado nas legislaturas de 1826-1829 e 1830-1833 – mantendo uma carreira discreta no início, mas sendo mais participativo depois.

Além de participar de vários debates, ganhou notoriedade com seu parecer sobre a abolição do celibato dos padres (questão do celibato). Integrou a Comissão dos Negócios Eclesiásticos onde defendeu medidas reformistas de cunho liberal para a Igreja. Era crítico do absolutismo do Papa na Igreja.

Em 1829, frente à crise do governo de Dom Pedro I, afundado pela guerra, a repressão e a crise econômica, participou da mobilização parlamentar contra o governo e seus ministros em que a Câmara saiu vitoriosa. A crise do Primeiro Reinado se aprofundou com a notícias da Revolução de julho de 1830 em Paris, que derrubou Carlos X da França, e o atentado que matou Líbero Badaró, jornalista e ativista liberal, opositor do governo. O Brasil inteiro passou a ser permeado de revoltas. Em 11 de março de 1831 ocorre a Noite das Garrafadas que antecede a queda de Dom Pedro em 7 de abril.

Ministro da Justiça

Com a queda de Dom Pedro I, Evaristo da Veiga liderou a eleição de uma regência provisória composta pelo Marquês de Caravelas, o senador Vergueiro e o general Francisco de Lima e Silva, que tiveram de lidar com diversas revoltas, entre republicanos, de um lado, e restauradores, do outro.

Feijó foi nomeado Ministro da Justiça da Primeira Regência, sendo empossado em 6 de julho de 1831, aplaudido pelos moderados e repudiado pelos republicanos. Teve de acabar com a revolta do corpo de polícia no Campo de Honra, no Rio. Buscando impor a ordem, criou a Guarda Nacional. Defendia que sem ordem seria impossível reorganizar uma monarquia constitucional, que ele apoiava.

A polarização política assumia a forma de três partidos: os moderados, de Feijó, também chamados de chimangos ou chapéus redondos; os exaltados, ou republicanos, também chamados de farroupilhas ou jurujubas; e os restauradores, que defendiam a volta de Dom Pedro I (que estava em Portugal lutando contra o absolutismo miguelista) e eram chamados de caramurus – grupo ao qual faziam agora parte antigos opositores do ex-imperador, os Andradas (sendo José Bonifácio nomeado tutor de Dom Pedro II).

As conspirações tomaram conta do país e Feijó se sentia isolado para combatê-las. Apontou a tutoria de Bonifácio sobre Dom Pedro II como um perigo para a segurança do governo e propôs a destituição do tutor do príncipe. Ganhou na Câmara, mas perdeu no Senado. Renunciou ao cargo em 26 de julho de 1832, sintoma da crise do governo moderado.

Senador

Permaneceu em São Paulo até maio de 1833. Depois foi nomeado senador pela província do Rio de Janeiro, após vacância deixada pelo falecimento do marquês de Santo Amaro, onde continuou atuando contra o grupo de José Bonifácio. 

Fundou em 1834 o jornal O Justiceiro com seu primo e amigo, o padre Miguel Arcanjo Ribeiro de Castro Camargo. O jornal, no entanto, teve vida curta.

No Senado atuava contra a anistia aos rebelados nas diversas províncias do Brasil.

Regente do Império

Em 1834, foi proclamado o Ato Adicional que transformava a Regência Trina em Una. Foi eleito Regente do Império pelo parlamento, tomando posse em 12 de outubro de 1835, sendo o primeiro chefe do Poder Executivo eleito no Brasil. A crise política, social e econômica do Brasil fez com que o governo vivesse em meio a crises, tendo de lidar com a oposição de liberais, que defendiam ainda maior centralidade política, e os regressistas, senhores de terra contrários à centralização e ao Ato Adicional de 1834 – além de revoltas populares e escravas diversas, como a Revolta Farroupilha, a Balaiada, a Cabanagem, a Revolta dos Malês e a Sabinada.

Isso acabou desgastando o governo. Sem apoio político, declarou-se doente e renunciou em 19 de setembro de 1837. Regressou à sua chácara da Água Rasa em São Paulo após tentar sem sucesso um golpe dos moderados. Viveu algum tempo na calmaria.

Caricatura de Manuel de Araújo Porto-Alegre mostrando o Padre Feijó quando deixou a Regência, voltando para São Paulo

De volta ao Senado

Voltaria ao Rio para a sessão do Senado em abril de 1839. Voltou a combater os republicanos e atuou novamente em assuntos de instrução pública e religiosos. Foi eleito presidente do Senado aos 55 anos. Tendo fracassado politicamente e gravemente doente, conseguiu uma pensão e renunciou à presidência da Casa. 

Apesar de continuar senador, cargo que exerceu até 1843, poucas vezes voltou ao Rio de Janeiro. Assistiu à coroação de Dom Pedro II em 1841 e, no mesmo ano, foi agraciado com a grã-cruz da Ordem do Cruzeiro por decreto.

Revolução, prisão e morte

Na Câmara, a maioria dos políticos eram liberais, mas no governo de Dom Pedro II dominavam os “regressistas”, fundadores do Partido Conservador. Isso levou ao surgimento de revoltas liberais no ano de 1842, que Feijó chegou a articular e participar, hemiplégico, na cadeira de rodas, em manifestação em Sorocaba (SP), defendendo a centralização política.

Com a repressão, Feijó foi preso e levado para São Paulo, depois Santos, chegando ao Rio de Janeiro em 23 de julho de 1842. Ao lado dele, o Senador Vergueiro. Ambos os senadores foram exilados em Vitória, no Espírito Santo. O desterro durou cerca de cinco meses.

Em janeiro de 1843, foi para a tribuna do Senado. Apresentou sua defesa em maio, mas já estava muito doente, sem conseguir ficar de pé. Em julho, obteve licença para voltar à sua terra, onde acabou falecendo aos 59 anos, em 10 de novembro de 1843, após um acidente durante uma caminhada.

Estátua de Diogo Antônio Feijó, parte integrante do Monumento à Independência, no Ipiranga
Diogo_Antonio_Feijo
Regente Feijó, por Sébastien Auguste Sisson
País de Nascimento

Brasil

Nascimento e Morte

17/8/1784 – 10/11/1843

Família

Resumo

Liberal moderado, defensor da monarquia constitucional, ministro da Justiça da Primeira Regência e, depois, Regente Uno do Brasil, parlamentar e sacerdote, participou da Revolução de 1842