Tiradentes

Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes, foi um dentista, comerciante, militar e ativista político brasileiro, principal dirigente da Inconfidência Mineira, um dos movimentos precursores da independência do Brasil diante de Portugal. Por isso, é considerado herói nacional em seu país.

Nascido na Fazenda do Pombal, na Capitania de Minas Gerais, em 1746, quarto de sete filhos do dono de terras português Domingos da Silva Santos. Sua família, em 1756, tinha 35 escravos e, além de atividades agrícolas, também trabalhava na mineração – atividade econômica de maior importância na época e que se desenvolveu pelo desbravamento do território americano pelos bandeirantes nas décadas anteriores.

Seus pais morrem logo cedo na sua vida. Com onze anos já era órfão de pai e mãe. Sua família empobrece por causa de dívidas. Foi viver sob a tutela de seu tio e padrinho Sebastião Ferreira Leitão, um cirurgião dentista – profissão que aprenderia no futuro.

Como muitos setores pobres, ou empobrecidos da época, foi tentar a vida como minerador e comerciante, e tornou-se sócio de uma botica de assistência à pobreza na ponte do Rosário, em Vila Rica. Além disso, ainda adolescente, aprendeu as práticas farmacêuticas e a profissão de dentista, o que lhe rendeu a alcunha de Tiradentes. Desta forma, exercia a medicina diante de seus conhecimentos de plantas medicinais – seu primo, o frei José Mariano da Conceição Veloso, era botânico e o iniciou na área. Trabalhava tratando os problemas de saúde dos povoados mineiros.

Adulto, já com grande conhecimento na mineração, foi empregado pelo governo para reconhecimento de terrenos e na exploração dos seus recursos, sendo contratado para estudar o sertão sudestino. 

Também foi militar. Em 1780, alistou-se na tropa da Capitania de Minas Gerais, sendo nomeado comandante do destacamento dos Dragões na patrulha do “Caminho Novo”. O caminho era uma rota de escoamento da produção mineradora da capitania mineira ao porto Rio de Janeiro. Tinha como papel defender o escoamento dos minérios de bandidos e índios não-alinhados, ganhando reconhecimento na operação que levou à prisão do famoso ladrão Montanha.

Foi com sua relação com os militares que adquiriu o sentimento nacionalista, passando a ser crítico do domínio português sobre o território brasileiro. Primeiro porque via diretamente os recursos brasileiros que iam para a metrópole. Segundo, pois os militares brasileiros exigiam melhores salários e melhores condições de trabalho. Após perder o comando da patrulha do “Caminho Novo”, frustrado com a carreira militar, pediu licença da cavalaria em 1787.

Inconfidência mineira

Durante o Século XVIII, Portugal enriqueceu muito com a atividade mineradora de Minas Gerais, que por sua vez era o foco da atividade econômica brasileira. A atividade da mineração iniciada pelos bandeirantes, notadamente Borba Gato, permitiu o primeiro grande desenvolvimento industrial do Brasil, permitindo o surgimento de uma forte burguesia nacional com interesses em maior independência da Nação.

Por isso, começa a aparecer em diversos cantos de Minas Gerais e do Rio de Janeiro movimentos conspiratórios pela independência e protestos contra o Reino de Portugal. Como é comum nos processos de revolução burguesa, os setores mais radicais da luta nacionalista se encontravam entre os militares, aos quais Tiradentes havia tido contato.

Após a licença militar, Tiradentes foi morar no Rio de Janeiro, onde aumentou seu desprezo pelo domínio português. Nessa cidade, teve romance com Perpétua Mineira, moradora da Rua do Ouvidor, no Rio, que passou a ser espionada após, em 1790, o Conde de Resende ser nomeado Vice-Rei do Brasil, tendo como missão acabar com a conspiração mineira. Devido sua relação com Tiradentes, sua casa de pasto foi por vezes invadida. 

Tiradentes, por sua vez, já havia retornado em Minas Gerais e pregava em Vila Rica e arredores a favor da independência da capitania – como foi dito, centro econômico do Brasil. Ao seu lado, diversos militares, o povo, integrantes do clero e também uma burguesia rica de Minas Gerais. O movimento teve grande influência da Revolução dos Estados Unidos de 1776, que conquistou a independência diante da Inglaterra. Por isso, o movimento subversivo era extremamente preocupante para Portugal, que temia perder o então estado mais importante de sua colônia americana.

Ao mesmo tempo, a conspiração tinha influência dos iluministas franceses que fizeram a revolução de 1789, pois a elite mineira tinha relações com os intelectuais europeus de ideias liberais e democráticas. 

Essa burguesia mineira não tinha interesse em que ⅕ (o quinto) da exploração dos minérios brasileiros fossem à Coroa de Portugal. Aprofundando a crise, quando a indústria mineira já estava a todo vapor, a administração portuguesa começou a marginalizar a burguesia mineira em detrimento de seus aliados e familiares – fato que também apareceu entre os militares, sendo os portugueses promovidos e os brasileiros escanteados em postos menores (fato inicial de indignação de Tiradentes). 

A elite mineira estava endividada com a Coroa, com impostos atrasados. A soma de tudo isso levou à Inconfidência Mineira, na qual se destacam os militares e os intelectuais, como o tenente-coronel Francisco de Paula Freire de Andrade, os poetas Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto – escritores do Arcadismo mineiro, que tinha fortes influências iluministas. Tiradentes era a soma de todos esses fatores: ao mesmo tempo, um ex-militar, um profissional liberal e um intelectual.

Os inconfidentes marcaram um levante para a ocasião da derrama (mecanismo que assegurava o quinto português) de 1789. Antes do levante, no entanto, os revolucionários foram delatados para a administração colonial. O novo governador da Capitania, Luís Antônio Furtado de Mendonça, conhecido como Conde de Barbacena, suspendeu a derrama, esvaziando o movimento.

Repressão

O vice-rei, o Conde de Resende, por sua vez, foi avisado e iniciou uma perseguição contra os revolucionários. Tiradentes foi obrigado a se esconder no Rio de Janeiro, mas foi delatado, tendo sua casa cercada por soldados no dia 10 de maio. Foi capturado. Além dele, outros inconfidentes foram presos.

Durante três anos, os inconfidentes ficaram presos aguardando a finalização do processo, enquanto as autoridades terminavam de repreender alguns revoltados. Todos os inconfidentes foram condenados ao degredo, à exceção de Tiradentes, condenado à morte por ser o inconfidente de classe social mais baixa e, por isso, o mais popular. 

Martírio de Tiradentes, óleo sobre tela de Francisco Aurélio de Figueiredo e Melo

No dia 21 de abril de 1792, teve de percorrer em procissão as ruas do centro da cidade do Rio de Janeiro. A execução foi dramática, pois Portugal pretendia transformar a morte de Tiradentes numa demonstração de força. Encenações de vários tipos: a leitura sentença estendeu-se por dezoito horas, houve aclamação à rainha, etc. Tiradentes foi enforcado e esquartejado. Sua memória e os seus descendentes foram declarados infames e sua cabeça foi erguida em um poste em Vila Rica, e os demais restos mortais foram distribuídos ao longo do Caminho Novo, por lugares onde realizou comícios revolucionários – uma forma de desmoralizar o sentimento revolucionário do povo. Da mesma forma, a sua casa foi destruída. 

Execução de Joaquim José da Silva Xavier (Revista Illustrada)

No entanto, a encenação e a brutalidade da execução tiveram efeito oposto ao desejado por Portugal, levantando a ira da população.

Tiradentes Esquartejado, obra de Pedro Américo.

A Inconfidência Mineira foi precursora da luta pela independência do Brasil, que só ocorre efetivamente cerca de 30 anos depois, em 1822, numa luta liderada por José Bonifácio e os seus irmãos Andrada, e Dom Pedro IV (Pedro I do Brasil) contra as Cortes de Portugal.

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Tiradentes, pintura de José Wasth Rodrigues
País de Nascimento

Brasil

Nascimento e Morte

12/11/1746 – 21/4/1792

Família

Resumo

Comerciante, minerador, dentista, médico, militar e revolucionário brasileiro que liderou a Inconfidência Mineira, movimento pela independência diante de Portugal que precedeu o processo de independência de facto do Brasil. Herói nacional e mártir